segunda-feira, maio 02, 2016

Dicotomia

No alto. No sol primaveril. Deixei-me voar daquela escarpa. Ganhei asas no horizonte e mergulhei fundo. Deixei de respirar todo aquele tempo. Tinha o ar todo à minha volta.

Estive perto do céu. E não consegui entendê-Lo. Mesmo cantando, mesmo rezando. Céus cinzentos não são amor.

Voltei à terra. Aterrei no teu abraço e soletrei palavras de eterno. Foi a tua vez de voar. Fiquei a ver-te. Com formas distintas de levitar, soube que estavas em paz.

Estiveste perto do céu. E conseguiste entendê-Lo. Tentaste explicar-me. Em vão. Tudo o que não é sentido, não é inteligível. Para mim.

Da inquietude dos dias às manhãs de domingo a preguiçar.

Da dicotomia entre o céu e a terra.


Se hoje sou mar, amanhã sou areia.

P.S. I see the path now clearly to you: https://www.youtube.com/watch?v=yaNOqkDVxF8

terça-feira, março 08, 2016

Listas

Ando para escrever. Aqui. Tenho escrito para mim. Nas folhas soltas, como gosto. E em cartas.

Aqui é um espaço diferente. Os silêncios têm que ser outros e as pausas têm que parecer uma melodia bem tocada.

Lembro-me de tocar as notas inventadas e gostar das músicas que saiam da cabeça da artista. Sem agenda, eram assim aquelas aulas.

Hoje, gosto, das minhas listas de coisas a fazer. Para me orientar no tempo. Ao longo destes anos fui assim. Papelinhos pequeninos e vou riscando.

Há 3 anos que todos os anos, no princípio do ano, defino objetivos com a regra Pouco, Pequeno, Possível. São objetivos a curto-prazo. Os de longo-prazo trago no coração, mas tenho que os escrever em letra grande para eles não se esquecerem de me lembrar.

Percorri nestes anos um caminho bonito. Um caminho feito por mim, mas com especialidades que me agradaram muito e muito me fizeram crescer. Hoje, dias depois de fazer mais um ano de vida, o final de tarde quebrou este silêncio aqui. Quase como uma magia em mim.

Hoje, quero fazer uma lista diferente. Quero fazer uma lista de sentimentos e partilhá-la com os que partilham comigo dons de sentir. Dizer que gostamos tanto, que queremos tanto o bem, faz cada dia um dia mais feliz.  


Quero ser uma flor por abrir para o mundo. Quero ser uma flor cor-de-rosa para o meu mundo. E quem está cá sabe que cor é esta.

sexta-feira, dezembro 25, 2015

Feliz a sério

Lembro-me daquele tempo. Da esperança que a vela do Natal nos dava.

Acordávamos três na mesma cama. Eu e os meus irmãos. Levantávamo-nos com a energia de crianças felizes. Íamos para o soito de manhã. À tarde o nosso pai dava-nos tréguas.

Brincávamos.

Anoitecia.

Voltávamos para casa. A lareira acesa pequenina aquecia a cozinha, onde todos comíamos. Cheirava a bacalhau cozido, a batatas cozidas e a couve do Natal também cozida. O azeite por cima e parecia que estávamos a comer a melhor iguaria do mundo.
Saíamos para a missa. Com os sobretudos agasalhados, que passavam de uns para os outros. O Galo cantava à meia-noite e o incenso abstraia o cheiro do frio. Rezava pela noite que aí vinha e pelos dias futuros que queria não serem de frio.

De seguida íamos para a fogueira no largo da Igreja. Aquecíamos as mãos, a cara e o corpo. E ali voltávamos a sonhar, com os olhos vidrados no fogo e com os sorrisos e gargalhadas que nos saíam.

Voltávamos para casa para adormecer. Mas antes, escolhíamos a nossa melhor meia para colocar na lareira, com a esperança de ela poder ficar presenteada naquela noite. A minha mãe acendia uma vela. Adormecíamos felizes, felizes a sério.

Acordávamos três na cama. Mais uma vez, numa repetição consecutiva de dias até algum crescer e casar. Saltávamos de repente numa corrida até à lareira. As meias pareciam iguais, do mesmo tamanho, sem alteração. Mas, tocávamos nas meias e havia mágica. Por entre lãs entrelaçadas sobressaiam uns rebuçados. Ficávamos felizes, felizes a sério. Guardávamo-los para comê-los no final do almoço como sobremesa.

Abraçávamos as pernas da nossa mãe, num obrigado sincero. Enquanto nós lhe aquecíamos as pernas com o abraço, ela preparava-nos filhoses. A casa cheirava a filhoses acabadas de fritar. Salivávamos agora para poder comer aquele doce com o leite quente.


Lembro-me daquele tempo. Dos pormenores todos. A felicidade que tinha dentro de mim pelo tão pouco que precisávamos. Hoje vou voltar a acender a vela. Hoje vou voltar a comer um rebuçado. Hoje vou voltar a rezar. Hoje vou ser o menino de ontem. E vou ser tão feliz. Feliz a sério.

quarta-feira, outubro 14, 2015

Grito maior

Hoje apetece-me gritar-te. Ao ouvido. Em sussurro, mas de forma a estremecer-te e a ser ouvida em todas as tuas células, em todo o teu corpo.

Um grito de alma. E de sorriso. Um grito que aproxima as distâncias. Como se aí longe ouvisses a minha voz a chamar-te. Todas as noites. A querer tanto que adormecesses esta voz calada com o fim das histórias de embalar.

Enquanto o grito ecoa todo em mim também, absorvo o tempo e de novo é tempo de estar por perto. Um perto que cuida, que faz bem, que enternece os sentidos, que amolece a forma dura dos dias lá fora.  

Espero silenciosa pelos dias que faltam. Espero pelo caminho que se faz. Espero com a esperança de que os pés lado a lado são mais bonitos. Espero com a saudade do marulhar e de mãos entrelaçadas.

Acabei de soltar este grito. Vejo as ondas sonoras a baloiçar à minha frente. E lá ao fundo? Lá ao fundo… tu… tu… tu…

E eu?


Estamos longe para concretizar estas palavras. Que nos façamos sempre perto. Perto e porto de nós.

P.S. Dancing in the moonlight, Don't we have it all? https://www.youtube.com/watch?v=ilw-qmqZ5zY

quinta-feira, setembro 24, 2015

Bem-me-quer

No meio do arvoredo verde e alto andámos. Passo sem pressa. A respirar o que de puro há. A luz a trespassar o verde e o sonho ali à nossa frente a existir. Por entre História e Arte, adivinhámos os tempos, o passado.

Com Sol e vento e sorrisos estampados, vivemos o presente.

Aos meus olhos aparecem flores brancas. Daqueles bem-me-queres pequeninos. Peço-te para abrires a tua mão. Recolho-os e ficam suspensos na tua linha da vida. Mesmo com o vento à nossa volta, eles não voam. Querem-te dizer algo.

São cinco. Cinco bem-me-queres.

Consegues adivinhar a sequência futura? As folhas terão elas uma função que explique o seu crescimento contínuo?

O branco e a ausência de cor. O branco que me diz tanto. Que para mim é paz, é saudade, é tranquilidade, é amor. Sou feita desta cor na esperança de poder eternizar em mim o bem.


O bem-me-quer teu, o bem-te-quer meu.

P.S. Uma música bem-me-quer: https://www.youtube.com/watch?v=kfk6TKC1Fxk 

sábado, julho 25, 2015

Abraço de ontem

Inclinei-me para ti. Para os teus interesses. Queria saber mais. O que já viveste. Por onde andaste. O que já fizeste. Quem te magoou. O que magoaste também. Queria, no fundo, conhecer-te.

Por entre chás de inverno, conversas tranquilas, filmes premiados, comecei a traçar o que queria. Devagarinho. Muito devagarinho. Lá fui. Esperei e acreditei. Depois desacreditei. E voltei a acreditar, porque não consegui desligar, voltar de novo ao zero ou aos números negativos.

Da timidez fez-se luz. Luz que irradiou cá dentro e que faz bem. Não me fazes pensar tanto. Permites-me sonhar nas histórias que contas, sempre que te interrompo as falas. Permites-me viver mais na realidade, com o que realmente existe. Desafias-me no feminino, para me cuidar mais. A alma anda cuidada. Sempre tive mais cuidado com o intelecto do que com o “extelecto”. É preciso balancear mais.

Quero continuar a escrever-te. A ler-te. A Estudar-te. A sentir-te mais.


Não sei quais/como serão os desafios que aí vêm. Espero e acredito que sim. Que vamos estar à altura de os ganhar. Para no fim, os abraço dos ontens serem eternos.

P.S. You'll always be part of me...https://www.youtube.com/watch?v=PiF5OGcbiic

sábado, junho 20, 2015

Casas, viagens, eternidades

Procurei-te no acaso.
Numa fila de trânsito. Num passeio de rua. Num lugar de comboio. Num museu estrangeiro. Num ar livre alto.

Procurei-te a voar.
Sem ter os pés na terra. Sem me ter a mim terrena e filha do mundo.

Voltei das viagens com o vazio ainda a fazer-me cócegas. Mas, voltei sempre mais certa de quem sonho. Mais certa de quem quero. Mais certa de quem sou. Voltei com um passaporte aberto, como uma herança que tenho que partilhar.

Voltei para ser parte do mundo, da minha história, da tua história. Ainda que com asas, vou com os pés a trilhar caminho sério. E gosto desta mistura de mundos. Do meu fantasiado, romântico, especial e do teu mais real.

Precisava de aprender a sentir o chão. O chão sempre. O chão com dores e eu voava, voava até não ter mais chão.

É este o meu exercício de agora. Deixar de idealizar acasos e simplesmente sentir o que escolhi, o que fiz por merecer, o que não desisti. Sentir e deixar que sintam que há tanto para viver e para partilhar.


Os dias começam a contar. E eu mesmo descalça no chão, acredito na eternidade dos momentos, das partilhas, da vida que está para vir. Sinto que tu também acreditas.

P.S. Home is wherever I'm with you... https://www.youtube.com/watch?v=oUknlSWNbEI

sábado, maio 30, 2015

O tempo é o de voar

São tantas palavras que andam a bailar nos dias de inspiração. Adiam-se os textos. Acumulam-se os sentidos às coisas. Quer-se perceber melhor e não tardar nas respostas. 

O tempo é o de voar. Sobre o meu caminho. O tempo é o de caminhar. Sobre outros caminhos.  

Dou passos pequenos e grandes e procuro senti-los todos à minha maneira. Procuro sentir e seguir os outros passos que me são dados a mim. Devagarinho. Com a serenidade de uma espera boa. 

Procuro um melhor caminho, que me ligue a outros por perto. Procuro crescer com sóis de manhã e luas de noite. Estar perto faz ser mais com um egoísmo duplo.  

Querer ficar assim para sempre, sem mais nenhum mundo a existir.  

Ganho mais sonhos. Que aquecem mais o que trago dentro de mim.

P.S. O tempo que eu tenho é pra voar: https://www.youtube.com/watch?v=ACQc4phJHIM

sábado, abril 25, 2015

Planta com flores

Tenho a planta à entrada da casa. Com flores vermelhas. Com a meia luz a entrar-lhe todos os dias. Saio e entro e vejo-a e ela vê-me a mim. Toco-lhe para ver se tem sede. Não falo com ela, mas tenho presente que ela saberá o que vai em mim. Já tem mais de um mês e continua a viver.

Curioso o tempo em que me foi oferecida. Cuido dela. E com ela aprendo como devo ser cuidada também. As minhas flores são coloridas, mas gosto de escondê-las para que ninguém veja a beleza. Só gosto de deixar transparecer um pouco de cor naqueles momentos que sinto que faz sentido.

Há alguém que vai percebendo e com um regador de sonhos lá vai cuidando da minha terra. Dou a mão a este tempo, com o tempo de ontem já passado, com o tempo de amanhã com tanto ainda para ser.

Fico recostada com os olhos fechados e mostro como são belas as flores. Sorrio tanto. E adormeço com o desejo de crescer mais. O espreguiçar da manhã é de liberdade.


Cuido. Gosto de cuidar. Cuidam-me. Cuidas-me. E também gosto.

P.S. See the road, begin to climb
See your stars begin to shine
I see your colors and I'm dying of thirst https://www.youtube.com/watch?v=cbixLt0WBQs


sábado, março 14, 2015

Sol de Março

Março. O sol a querer ser quente. Os anos que já passaram. As histórias que trago dentro e que já estão tão no sítio.

Há arrumações que demoram tempo. Porque não temos tempo para mexer nelas e, ou muitas vezes, porque não estamos preparados para encontrar um início na confusão.

Há arrumações que se fazem aos bocadinhos. A velocidade é infinitesimal, mas acontece. Com os pensamentos a serem menos frequentes. Com a minimização que vamos dando ao que fez parte.

Depois disto, há um dia em que olhamos para dentro de nós e percebemos. Tanto.

De como estamos livres. De como estamos leves.

Quando acontece é esse o momento de voltar a voar. Não voltar a castrar sonhos. Deixar ir pelo sentido que achamos certo.

Depois disto, pode ficar outra vez tudo desarrumado. Com gavetas ainda maiores cheias de papéis feitos de memórias.

Aí volta o medo. Mas o processo da arrumação tem que partir de uma decisão pessoal.

Cada problema tem uma solução simples. O caminho para chegar até ela depende dos nossos olhos e das nossas mãos. Se os queremos fechados para não verem nada do que está desarrumado. Se as queremos quietas para não porem ordem ao que lá vai.

Hoje é um bom dia para arrumar a casa. Com um Sol de Março [de liberdade de leveza] à janela.


P.S. Não foi o texto que pensei para esta música que me encanta, mas foi o que saiu hoje. https://www.youtube.com/watch?v=QUxowFtSx_E

domingo, fevereiro 08, 2015

Percorrer o deserto

Percorrer o deserto, o sol, à procura do interior.

Do monólogo cerrado entre dentes e memórias, a cada dia, a cada quilómetro vamos sabendo um pouco mais. O que não queríamos voltar a pensar, a lembrar, envolve-nos até termos coragem de parar e aceitar, de parar e perdoar.

Aquele caminho era um exercício de perdão. De perdão pelos erros. Pelos erros de luto. De luto desde sempre. A história começa a acontecer mal se nasce. Se se é ou não é amado. Num misto de tantos acasos, há quem se perca. Sem luz não se consegue encontrar de novo o caminho de casa, da casa que é mesmo casa, com paredes e afecto.

Depois, há aqueles que sabem que erraram em tanta coisa. E decidem ir. Ir com a mochila pesada, como a alma deles. Ir e a cada dia a mochila ficar mais leve, por se arrancar páginas de livros. Ir e cada dia a convivência com o eu próprio ser mais pacífica. Ir e aceitar que somos frágeis. Ir e perceber que este caminho tem que ser feito sozinho.

É esta solidão que nos leva ao que procuramos. É esta solidão que faz de novo aquecer a casa que pensávamos já estar destruída. É esta solidão que faz crescer.

No fim, chegar a uma ponte. Uma ponte que liga duas margens. Uma ponte de deuses que vão dando sinais. Uma ponte que a cada passo dado nos diz que os passos passados seriam dados da mesma forma. Com esta certeza, chegamos ao lado de lá. Livres. Com a procura do interior perdoada.


E o sol continua a brilhar.


P.S. Do filme Wild.

sábado, janeiro 17, 2015

O lugarzinho

A porta era pequenina. Era preciso baixar a cabeça e empurrar a porta com alguma persistência. Estava aberta, mesmo parecendo que tinhas as trancas. A curiosidade era alguma. Abrir uma porta desconhecida, sem antes pedir permissão. Um pouco de ousadia e uma capa de valentia. Afinal, que mundo era aquele que se esperava encontrar?

Não havia expectativas. Simplesmente, a porta tinha algo que fazia querer entrar. Sem muitos pormenores de explicação.

Em primeiro silêncio e olhos fechados. A luz a tocar na cara e a fazer corar. Os olhos a abrir. O lugar não tinha espaço nem tempo. Era o lugar. O lugar que se procurava. O lugar que tinha ficado esquecido na memória. E ali não havia nada. A não ser um encontro. De silêncio e de palavras.

Era o lugar pequenino, o meu lugarzinho.


Volta e meia gosto de voltar a abrir a porta.

sábado, dezembro 27, 2014

Balança sem medida

Não tenho uma balança que me pese o que foi bom e o que foi mau. Sei apenas que estive nos dois pratos.

O que foi mau doeu muito e há dores e estados que ficarão para sempre intrincados em todos os nossos ossos.

O que foi bom, foi muito bom. Foi o estudo da personalidade, as viagens a Espanha, o trabalho, os dois graus, os concertos. Fui feliz no desafio dos 100 dias e também este ano escrevi mais.

O próximo ano é ímpar e eu gosto de números ímpares.

Há quem me faça rir. Há quem me faça não pensar. Há o que há e só eu sei que há.

2015 sê gentil comigo e faz com que eu seja gentil comigo própria.


P.S. Tem vez que as coisas pesam mais/Do que a gente acha que pode aguentar/Nessa hora fique firme/Pois tudo isso logo vai passar/Você vai rir, sem perceber/Felicidade é só questão de ser...  https://www.youtube.com/watch?v=s2IAZHAsoLI

quarta-feira, novembro 12, 2014

Paralelismos

É o perto e o longe. Os sonhos que dizem sim. As realidades que dizem não. O meio que fica por acabar. As saudades das viagens à procura do espaço, a esquecer os costumes. O direito da vida, da felicidade. O primordial artigo que falta, que me escapa em cada gole de respiração. O tempo que passa, passa, passa e deixa os pés frios. Para que não se possa andar. Para que a imobilização seja para sempre.

É o eu e o tu. Os caminhos que são paralelas. A neve que cai e me procura, o sol que brilha e te afasta. Leve, como a brisa, deves ser. Desapareces num rompante sem antes ter tempo de sorrir. E a cara séria volta. E as mãos vagueiam pelo ar. Os pulmões suspiram. Anseiam por parar de novo a respiração.

Mesmo com os pés frios, mesmo com as mãos a vaguear, o coração continua.


A bombear os mesmos sonhos de outrora.

P.S. Ouvir ao vivo tem outro sabor, mas não deixa de ser bom.https://www.youtube.com/watch?v=-_2HyXODMg0

terça-feira, outubro 07, 2014

Tenho andado uns minutos antes do tempo acontecer

Tenho andado uns minutos antes do tempo acontecer.

As janelas sempre fechadas, para este “aqui” poder ser um sítio onde o tempo não aconteça. Onde haja a ausência dele, a vontade de ser silêncio e só (com pensamentos).

O mesmo acontece quando se olha vazio. Quando por momentos se perde a noção do quando, mas se ganha a noção do espaço. Tento entender este novo espaço. Despido de passado.

Tenho-me esquecido tanto dele, porque não há tempo nem espaço para que renasça em mim ou se lembre que ando por aí.

Revestido de paredes brancas de futuro.

Tenho-me lembrado tanto dele, porque há o espaço e o tempo são de futuro. Porque o que se faz é na “fé” de uns dias melhores, com a primazia do valor humano e intelectual reconhecido. Pelo que baste.

Com mais ou menos barulho vou conseguindo adormecer com sobressaltos do que vem por aí, do que me espera. É aquele medo próprio intrínseco à condição tempo.


Quando não há tempo, não há medo. E eu tenho andado uns minutos antes do tempo acontecer.

P.S. Não há mais palavras. https://www.youtube.com/watch?v=4PJ-dgnK-Ok

quarta-feira, setembro 03, 2014

Um teste

O tempo é isto. Uma sequência de imposições. Dos outros e tuas. Imposições sem liberdade. Cada vez os graus ficam menores. Por mais que não queiras ser do padrão, há o modelo. O melhor modelo de entre alguns. O modelo que os números dizem que é esse que se adequa (a ti?). 

Mas, e se… ? (interrompem os sonhos)

Não podes perguntar.

Mas, eu quero perguntar.

Quero inventar um novo teste que me faça sempre rejeitar todos os modelos. Todos os modelos que idealizam para mim. Todos os modelos que idealizo para mim.

Quero. Apenas. O simples. Apenas. O fecundo. Apenas. A paz. Apenas.


Quero. A mim. Própria. Sem floreados. Com as asas de uma andorinha que migra. 



P.S. *Quero acreditar que os que partem para se tornar estrelas o fazem para iluminar os que continuam, num altruísmo puro.

sábado, agosto 23, 2014

Que beleza há numa poesia que fala por si?

Que beleza há numa poesia que fala por si?
Num si de uma escala harmónica.
Num dó que dói por ti.

Não há métrica que seja ouvida.
No semblante que vejo longe.
Houve um dia que sonhei ser prosa em poesia lida.

E o sonho ficou em vão.
No meio da nostalgia.
Não me peças para dar o pão,
Quando és semente todo o dia.

E vou ficando calada
Para os que não querem sentir.
E vou ficando mais longe,
Do fim que minto para mim.

P.S. Este poema teve como inspiração o filme "O Clube dos Poetas Mortos". https://www.youtube.com/watch?v=ovyfbirtPLs&noredirect=1

segunda-feira, agosto 04, 2014

As estrelas

Não sei de quem é a culpa. Gosto mesmo de imaginar que seja das estrelas. Que iluminam histórias que querem. As que não querem mudam de cor ou fundem a lâmpada.

As que dormem por cima de mim ainda não perderam o brilho. A miopia que tende a crescer faz-me vê-las desfocadas. Ficam maiores e parecem aquelas fotos com luzes às bolas.

Gosto de imaginar que estas estrelas, que escolhi como minhas, saibam que têm mais para me mostrar. Mesmo que eu continue a acreditar no meu mundo, mesmo que me digam que não é bom ser assim. Pouco me importa.

Não me peçam para ser das massas. Iria odiar estrelas que brilham para todos. Iria odiar ser reconhecida por milhares. Só quero as que são minhas. E talvez alguma que seja tua. Para já.

São estas estrelas que me vão levar ao privilégio. De amar. Privilegiar e ser privilegiado. Inventar uma palavra que seja sempre e repeti-la as vezes suficientes para ser tão sentida.

Não faz sentido não sentir.


Elas lá sabem o que querem ver brilhar. As estrelas.

quinta-feira, julho 03, 2014

Ele és tu


Ele és tu.

Com o olhar misterioso. Com os pensamentos a mil. Com a barba por fazer. Com a chuva miudinha a molhar a roupa. Com a vontade de ir.

Ele és tu.

Mesmo que não mo tenhas dito. Mesmo que tenha sido em vão a fotografia do teu rosto. Mesmo que tenhas esquecido o sítio para onde olhavas.

Com uma certeza meio incerta.

Ele és tu.

E eu ali, aqui, analista de números e de fotografias. Técnica das luzes, dos espaços, dos tempos. Intérprete de perguntas (que esta imagem me faz, que quero fazer).  

Que cores antigas queres tu que te descubram em ti? Quais os lugares que te fizeram felizes? Quais os lugares que te prostraram o rosto na terra? Lugares humanos, sentidos, inanimados? Que tempos houve em que te deixaste ficar na simples magia de parar tempos?

Isto é ir mais. É ir aos teus heróis. É ir ao que és tu.

A tua mochila vai meio cheia, meio vazia. De tudo. De nada.

Um bolso eu já abri. Nos outros estão mais perguntas, estão mais respostas à espera de serem perdidas e encontradas.


Ele és tu. Assim. 

domingo, junho 22, 2014

O Senhor Ser Feliz

Há uns pedaços de tempo pediram-lhe para desenhar o amor. Pensou e sentiu tudo ou não sentiu nada. Deixou a folha em branco. Eu não entendi na altura. Para mim foi uma dinâmica fácil. Hoje, depois de já ter ontens, compreendo tão bem o significado. Aquele que é dado a um dos ângulos do amor.

Dá-se a mão a quem nos faz bem.

O amor anda de mão dada com o ser feliz. São seres diferentes, mas complementam-se e, ao mesmo tempo, abarcam-se um ao outro. Em linguagem matemática, o amor pertence ao ser feliz e o ser feliz pertence ao amor. O “e” assume o sinal mais.

Nestes conjuntos o espaço que os rodeia além da fronteira é lato. Nele podem haver imensas constelações. O amor e o ser feliz vagueiam de mãos largadas na liberdade que os caracteriza. Andam por lá a captar corações. São verdadeiros estrategas e cansam-se quando não há objetividade.

Ouvem muitas vezes que se isto ou aquilo acontecer é que se vai ser feliz. O ser feliz não gosta que se pense assim no futuro, sem que se perceba o que há hoje, o que há hoje que nos faz felizes. O amor não gosta que falem isso, porque ainda não sabe lidar com o amanhã. Apenas gosta de pela manhã abrir os olhos devagarinho e sentir que está Sol, que o coração permanece tão grande.

Quando há quem esteja nesta sintonia do agora, as mãos são dadas a três. De cada um dos lados vai o amor e o ser feliz. No meio, a simplicidade de uma folha branca com a dimensão infinita de ser preenchida à medida, à forma de cada um.


Tudo o que é branco tem espaço para ser feliz.