segunda-feira, agosto 11, 2008

Emaranhar de ideias


A porta fecha. As cortinas correm. A vontade de escrever alia-se a um misticismo colorido pelas batidas quentes e escuras da noite. As palavras sussurram-me segredos analfabetos para o meu entendimento. Sei, por saber, que me falam do meu âmago. Trazem escondidas essências de sabedoria, razão e sentimento absurdo. Não é fácil perceber. O tempo esvoaça como o fumo da imaginação e a areia quase cessa e há a tomada de decisão que não espreita. A velocidade da rotação aumenta complexadamente e envolvo-me no que vejo, sem saber a porta de chegada e de partida. Estou no meio. Virtude? Graça? Desejo? Erro? É… no horizonte brilham questões e negações que se aliam a uma constante numa equação demasiado infinita. A terra e os sonhos sabem a mundos paralelos: intocáveis na perspectiva mais óbvia. Soltam-se gritos e asas avolumadas o suficiente para criar laços desejáveis. A identidade reluz e não se parece mais com o universo que arrefece pouco a pouco. No meio deste emaranhar de ideias, alguém ousa esperar pela luz da porta mais certa.

domingo, julho 13, 2008

Luz pouca



Perdida no silêncio amargo daquela noite, era capaz de te olhar e ver que não estavas bem. Não podia falar. Não podia sorrir. Não podia acenar. Apenas olhar. E olhava-te, como a Esfinge no deserto cheia de sede, e sentia que continuavas escuro. Toda a luz que tinhas conseguido tinha mudado de cor dentro de ti: cinzento e agora negro.
Estás preso, com correntes mortas, a ti mesmo e não te queres libertar. O que tens faz-te mal. O dever devia ser iluminar e não cobrir a luz com cabelos mentirosos e mãos bloqueadas.

Gostava de poder, outra vez, falar-te e dizer-te tanto, mas não posso. Promessa a mim mesma? Melhor: forma de eu não ficar sem brilho e esperança como tu.

Para ti, o desejo de te soltares da clausura em que vives por quereres e amares.


P.S. O blog fez 2 anos :) Eu mudei muito, mas vontade pela qual ele nasceu continua inalterável...

quinta-feira, junho 26, 2008

Cantos


Entrelaço-me no descanso dos dias longos e deixo-me ficar a saborear o que de mais delicioso há no recanto da minha lua. Olho, com aqueles meus olhos de escutar, os segredos dos que andam a dormir com o olhar entreaberto. Às vezes, gosto do que vejo e sorrio; outras, não esboço qualquer simpatia e baloiço-me na minha lua à procura de uma nova projecção.

Rodo-mo no melhor sentido da rosa-dos-ventos; Norte, Sul, Este, Oeste? Que importa? A melhor direcção é a minha: a mistura de todos os pontos cardeais com um único sentido apenas. Deleito-me com os aromas da terra e da água e do céu. E Disfarço-me na cor branca e deixo-me estar nesta transparência até quando eu quiser. Ou Tu?

Os segredos continuam a bajular as essências e cada vez mais me sinto convidada a ouvir os cantos das aves universais.

domingo, junho 01, 2008

Cansamo-nos



Cansamo-nos. Trazemos à baila essências demasiado trabalhadas para serem expostas aos não seres. Ficamos quietos e rimos. Rimos muito e alto. Rimos pelos olhares. Rimos pelo pardo que nos atrai. Rimos por existirmos assim. E. Baloiçamos com as letras das palavras que cantamos tão silenciosamente. Baloiçamos com os gestos das nossas vozes e das nossas mãos.

Ouvimos o rasto da música e tornamo-nos mais sérios. Adivinho a tua cor e tornaste irrisório nos meus pensamentos. Os barcos de papel que deixaste por navegar deixaram-te num porto hesitante. O mar fica revolto e tudo escuro, igual a ti. O teu olhar torna-se o meu. E. Não quero ver.

Cansamo-nos. As margens distanciam-se e nem um braço, nem dois, nem três eram capazes de uni-las por um dedo. Caminho para um lado e tu para outro. A música continua a ecoar baixinho. Fecho a minha janela e deixo-to do lado de fora. Estamos cansados. Preciso adormecer e acordar como eu era. Porque só assim faz algum sentido.

sábado, maio 24, 2008

É tudo.



Costas voltadas.
Arrepios de escuro.
Voz.
Poema.
Letras e palavras: Melancólicas.

Compassos misteriosos de pianos.
Eco.

Arrepio.
Lágrima.
Sentimento.

Sol.

Magia.

Quebra de ritmo e abala-se a melodia.

Palmas.

Sorrisos.
Desejos.


É tudo.

quinta-feira, maio 15, 2008

O ideal


A noite cai como um pano sobre a cara. Fecham-se as luzes e rodopiam-se as vontades. Trazem-se os sonhos amarelecidos. Focam-se as promessas em choros silenciosos. As palavras são desenhadas e guiam escondidas estados de alma. Penso: talvez o ponto final signifique mais do que ele mesmo; talvez o ponto final traga consigo o dia e as estrelas; talvez o ponto final seja o pretexto para finalmente brilhar. Os pensamentos continuam a significar símbolos e as minhas deixas deixam de ser pertinentes. O agora torna-se no que foi e fica o caminho aberto, como um conjunto ilimitado. A noite cai como uma flor seca, a morrer. É precisa água, muita água para renascê-la. Torná-la de acabada a mágica. O ideal.


Catarina

"(...)Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada." Miguel Torga

quarta-feira, maio 07, 2008

Herói, certo.


Nasceu quando ainda não havia nada que o fizesse viver. Tudo estava estagnado, quando nasceu. O tempo parado, os barcos encalhados, o vento estático, os sonhos mortos.

Nasceu quando ainda não havia nada que o fizesse acreditar. Crentes inexistentes faziam do passar irrisório dos ponteiros do relógio, grande negro da cómoda invisível, mera queda de pétalas de flores sem luz nem vida. Absurdos moravam na banalidade do comezinho, sem persuadir o próprio eu de cada um. Estúpidos, certo. Acomodavam-se ao conformismo hipócrita sem perceberem que tudo estava a abrandar; pouco a pouco, tudo estava a fenecer. Envolto de tanto fracasso, ele nasceu.

Nasceu quando ainda não havia nada que o fizesse crescer. O caos instalara-se na desordem do espaço e já pouco fazia sentido. Sem sentido de fuga, teve que nascer. Não houve brilhos nem sinos, só ouve um choro prolongado de lágrimas puras de imunidade à queda do apogeu. A linha do tempo foi-se aproximando do fim e o sufoco era notório nele. Era preciso algo. A cura existia, e era terrena e suprema. Ecos de bombardeios de sonhos invadiam-lhe o pensar e o sentir. Estremeciam-no. Pum-pum. A noite caíra e baloiçava tenuemente uma mudança pelos ares quietos. A metamorfose do existencialismo do indivíduo foi saber sonhar naquelas prontas horas e dar voz, muita voz!, a todos os desejos impostos por ele ou por alguém de olhos bem abertos.

Tudo acordou com o raiar da luz da manhã: as flores, as águas, os ventos, as pessoa, os céus. De ridículo, tudo passou a interessante. Herói, certo.

terça-feira, abril 29, 2008

Vem e vai


À deriva naquele dia sonhava com a voz de outros tempos...


Voz: Vem. Vem sentar-te aqui. Quero falar-te e saber das tuas decisões. Consigo perceber que precisas de algo meu.


(Olhar: Filha, os sonhos são dores…)


Voz: Senta-te. Olha os meus olhos. Sabem tanto. A idade também pesa, é certo, mas muito mais do que isso conheço-te. Conheço-te, porque também eu sei ler o invisível e por mais anos que passem, vais continuar a ser aquela papoila que baloiça e não cai. Serás sempre a menina dos sorrisos vermelhos, sempre.


(Olhar: Dorme, criança, dorme,/ Dorme que eu velarei)


Voz: Não Catarina! Não vás por aí! Não vais ser feliz assim. Imagino-te no futuro assim ... Confia no que te digo e não mintas mais a ti própria. Tens um castelo para construir e nunca para arruinar.
Agora vai, alguém te espera.

(Olhar: A vida é jovem e o amor sorri)


Deixei de derivar após ouvir e ler, pelo olhar, estas palavras. Serão indeléveis à passagem das folhas do Outono.


P.S. *As frases do olhar são da autoria de Fernando Pessoa e as da voz são de outra mente genial :)

sexta-feira, abril 25, 2008

Quando não sei


Sonhos perdidos na razão de não ser
Trazem escondidos pedaços de alma nua.
Quando há luz, evadem-se na linha imaginária e transformam-se em realização.


Quando não há luz, permanecem adormecidos e aniquilam-se em prostração.


1/4/2008


P.S. *Foi num dia de muita luz que os cravos marcaram um tempo, e ainda bem que marcaram :)

sexta-feira, abril 18, 2008

Sopros do mar


Não fui a tempo de te dizer que era eu a agitar as águas, porque não ouvi as tuas lágrimas, porque também eu estava a chorar. Não sei porquê, talvez adivinhasse a tua partida não sei bem para onde. Hoje, nesta noite, a escuridão já não pesa nem cerra, porque hoje, nesta noite, sou capaz de ouvir a nossa canção, aquela que outrora cantavas. E ainda cantas, porque eu a escuto e entendo mesmo não havendo clareias de luz… E tu sabes… Da nuvem onde te sentas a olhar-me a escrever, sabes… Sabes o quanto é essencial eu ver um dos teus sorrisos e guardá-lo na esperança de que a gota de água que lançámos seja capaz de fazer brotar da terra e do mar e do sol e da lua muitas palavras.

A nuvem afasta-se na imensidão desse teu grande mar, os grandes Deuses sopram afastando a calamidade sobre as águas, de longe revejo-te e alegro-me em sonhos que vagueiam moribundos pelos teus mergulhos constantes na perseguição às letras que timidamente vou deixando a pairar sobre o ar. Atravessas correntes descontentes na esperança que a grande mãe se lembre de deitar raios e coriscos e me devolva a este grande mar! Mas o vento corre e a poeira já se sente, neste presente serás tu uma alma crente?

Catarina Proença&Marco Martins


As gotas continuam a viagem neste universo de tantas e tantas existências :)

sexta-feira, abril 11, 2008

Ch...


Hoje estou dormente, porque chove. Chove tanto. Chovem palavras difíceis, cortantes, amáveis: clássicas; Chovem estrelas, sóis, luares: luzes; Chovem mares, árvores, pedras: terras; Chovem flores, borboletas, cores: utopias. Chove muito. Chove... chov... cho... ch... Hoje é noite e chove. Chove tudo o que há e que quero que caia.

Hoje renova-se o tempo que foi para ser o que será.

Hoje a minh' alma chove...


-Deixa-a chover!

9/4/2008

terça-feira, abril 01, 2008

com ou sem Lápis-lazúli


Solta-se o vento e escrevo.


Estonteio os meus pensamentos e o meu génio. Entrelaço o natural com o abismal e gosto. Simplesmente gosto. Há um toque de mestria na passagem fotográfica que encaro com os meus olhos, porque lhe dou um tom e uma forma. E gosto. Simplesmente gosto. Está tudo apontado no meu adereço de rabiscos apenas com sentido para mim e para outros como eu.

O que miro não está perfeito no enredo, mas perfeito é na génese que lhe dei.


Solta-se o vento. E Vou escrevendo com ou sem Lápis-lazúli.


"Hoje parece bastar um pouco de céu" :)

sábado, março 22, 2008

Puro engano


Sentado naquele banco estava inconstante ao querer e ao não querer. Afagava cada momento como se do último se albergasse, e beijava-o com todo o ímpeto de um momento inefável. Depois pensava no tempo do tempo que ali estava, estupefacto ao lago sem vida e às árvores despidas. Não conseguia mais do que conceber meros rabiscos mentais do que quer que pensasse, porque o cálculo de tudo e até do tempo já tinha partido com o vento e com os assobios. Agora, era só o agora que subsistia aos ritmos exagerados das ideias dos que raramente passavam por aquele banco, um banco escondido do quase mundo entreaberto em tons de não sei de que cor. Mesmo sem uma tonalidade definida por certo, ele osculava e abraçava tudo quanto recebia com os olhos e com as mãos. E demorava-se... Demorava-se no êxtase daqueles momentos indeléveis sem notar que o tempo é um simples acessório ao fragmento da vida.

P.S. *Um dia, alguém pediu ao Tempo para parar o tempo e o Tempo perguntou: por quanto tempo?

*Boa Páscoa para todos os que me lêem :)

segunda-feira, março 17, 2008

Plim


O meu cérebro pede descanso.
Plim.
De tudo o que pesa.

Plim.
O meu cérebro pede descanso.

Plim.
De tudo o que pensa.
Plim.

O meu cérebro pede,

Plim,

Descanso.

Apenas descanso.
Plim.

P.S. *Quadro de Georges Braque

quarta-feira, março 12, 2008

as minhas palavras


Há palavras que se perdem. Perdem-se em tudo: no tempo, no espaço, no pensamento, na fala. Perdem-se como se fossem partículas de nada, como se não fossem importantes, como se os pormenores não fossem essenciais para a compreensão de coisas. As palavras perdem-se nos assobios do vento, na luz da luz e na água que evapora. Elevam-se e misturam-se no escuro do céu. Ainda assim, tenho algumas comigo; não sei se são muitas ou poucas: são as que me ficam e que não se perdem. É com estas que desenho frases e bordos textos. É com estas que me conheço e me melhoro. São elas que dão sabor ao que sinto e vivo.
São elas... as minhas palavras.

P.S. Só espero que elas tenham um sentido hoje, amanhã e depois.

segunda-feira, março 03, 2008

Enlace: Do céu ao Mar



Gota de chuva, voas tu sob os suspiros de vento, ergues-te e levitas sem temer a reacção de todos estes elementos que a mãe natureza nos concedeu. Escreve-se nos céus, suspiro das lágrimas de vida, que o medo não te possua, vamos escrever a passagem das nossas vidas.


O medo não me possui, sou eu que o possuo às vezes. Hoje é diferente. Quero deixar marcas presentes neste céu que ergo no auge para deixar cair, lentamente, pequenas gotas invisíveis de palavras. E estas, apenas estas, fazem parte deste agora. A passagem de tudo é como as ondas daquele mar que aconchega sussurros nunca antes ouvidos. Antes que a voz se cale ou enfraqueça, vamos escrever a passagem das nossas vidas.


Dos céus revelando os seus encantos, vai-se descrevendo em anonimato; entre pensamentos e devoções vou entendendo nestas linhas a voz das suas exaltações, os segredos encantados e declaradamente apagados dos seus pensamentos. Sente este mar, olha à tua volta, tantas gotas, tantos segredos, tantas companhias desejadas, tantos aconchegos e tanta solidão, junta-te neste grande mar... Torna-te desejo, abraça as gotas dos teus sussurros…


O meu olhar é capaz de ver e sentir tudo isso; até sente mais além: vê o fundo deste mar. É tranquilo e isso apazigua o que há cá dentro… O barulho das gotas a cair já não incomoda, o segredar dos segredos já não existe. Só há desejo, desejo de abraçar estas gotas que me aparecem nas mãos, sem euforia ou distorção. Elas aparecem, porque hoje há o desejo de me juntar a este grande mar e de me enlaçar na voz dos meus surpresos sussurros.


Na chegada a bênção das boas vindas, aclamando suspiros de felicidade, sensação de uma casa habitada nunca antes deixada pelos instintos fortes da sua emoção. Instala-te nestas belíssimas barreiras de coral, divaga entre sonhos e desejos... agora conta-me em palavras de mansinho, ainda no presente te agonia a dolorosa permanência da solidão?


Não sei bem. Não sinto bem. Ela só aparece quando não estou dentro deste mar ou desta casa ou quando todas as nuvens ficam carregadas de chuva. Mas depois as gotas vão caindo e eu vou ficando melhor, o escuro das ondas vai desaparecendo e eu vou ficando melhor. Fico melhor quando estou segura, quando olho para as luas que me guardam, quando passeio pelas areias branqueadas do fundo do mar... Fico melhor quando falo de mansinho, sem pressas neste caminho.

Agora, diz-me, como é sentir as gotas a unirem-se a este mar?


É sentir a minha chegada prematura, a escuridão que invade a longa imensidão do meu peito, a ausência do que nos foge por entre as mãos e passam a meras algas perdidas sem destino, é guardar um álbum de recordações de entre as réstias das mágoas que nos instruem... é a tristeza de saber que um dia voltarei à rancorosa tela, onde tu me pintas rodeada de abraços e de coração solitário, de olhos tristes e adormecidos... Em breve chegará a hora da minha partida, tomarás as rédeas deste reino, torna-te fogo, torna-te luz... que lá de cima te pintarei!


Não há breves nem outros tempos condicionais. Só há uma tela que eu vou esboçando com traços de tinta de chuva. Enquanto pinto, as gotas caem-me para os olhos adormecidos e dou asas à criação. Com ou sem mérito, pinto. Pinto-te. Rodeado de abraços tão fortes, mas sem rancores ou olhos tristes. Os teus brilham quando encontram o primor dos meus traços ou as ondas da tela que inspiram os meus e os teus sussurros. Também os ouves, porque és sábio. E a voz, pequenina, fala-te do sonho e da esperança, fala-te do dom das gotas invisíveis de palavras. Gostas da música?



Catarina&Marco Martins


Sentidos completados em palavras. Que o gosto continue…


sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Comme un coquelicot


"Comme un coquelicot/Como uma papoila
Rouge-rouge/Vermelha-Vermelha
Rougit de vie/Avermelhada de vida
Et bouge/E mexe
Comme si... tu le savais/Como se... Soubesses
La vie n'a pas de mais"/A vida não tem obstáculos.


Uma prenda que recebi muito bonita de alguém há muito tempo. Uma prenda que me acompanha e que me encanta cada vez que leio o pedacinho de papel. Encanta-me pela subtileza na minha descrição.

......

Até para nascer é preciso ter sorte. Por isso, fico feliz por ter nascido na minha família e por ter conhecido pessoas espectaculares. Sem elas, certamente, que não poderia ser "un coquelicot". Obrigada, Luas =)

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Descalça


Saltito de nuvem em nuvem, descalça, com os pés molhados de luz. Saltito como uma criança: sem olhar para trás. Saltito mais e mais ao sabor do algodão das nuvens. Sinto que me elevo e não me sinto. Só sinto que voo em projecção lenta e demorada. E enquanto pairo, não penso; o meu conteúdo lógico perde-se no vazio do céu e eu simplesmente saboreio a sensação. Recebo-a com as mãos e saltito de nuvem em nuvem, descalça, com os pés molhados de luz.


Por vezes, é necessário descalçar parte do que somos para sermos capazes de receber sensações, nunca antes, percepcionáveis.

domingo, fevereiro 17, 2008

Há noites...


Há noites. Há noites em que pensamos que as nossas lágrimas sabem a fel como nós. Há noites em que percebemos que somos incapazes de sentir um Sol num oceano. Há noites em que o sonho não desperta. Há noites. Há noites assim.


P.S. Ainda bem que nem todas as noites assim são...



terça-feira, fevereiro 12, 2008

Ver que nunca percebo


Não ter forma para ser, mas ser.
Ser um pássaro que canta
Canta uma melodia que me faz fechar os olhos

Fechar os olhos para descansar, não eternamente,
Descansar o suficiente para poder ouvir o canto mais uma vez e ter vontade de fechar o olhar.
Este olhar que me acompanha

Acompanha em todos os pedaços de tempo
Como as minhas companheiras de guerra.
Esta guerra que se acalma mais e mais,

Apazigua-se à tua passagem.
A tua passagem que cruza a minha quando eu ainda,

Ainda,

Não fechei os olhos.

Estão abertos
Abertos a tudo e à tua passagem,

Porque preciso de ver
Ver que nunca percebo.

Tenho dito.

domingo, fevereiro 03, 2008

Máscara com sorrisos e malmequeres


Sinto-a como se navegasse por mim dentro, como se percorresse todos os meus neurónios numa sinapse demorada. Percorre-me sem me pedir licença, aparece-me sem me dar escolha e perturba-me sem me perguntar se incomoda. E incomoda mais que muito. Incomoda ainda um tanto quando pára. Ela pára. Pára cá dentro, bem ao centro, quase no meu ponto de equilíbrio; no meu peito.
Dói-me esta dor escura, este vazio que existe em ti e que sabe a amargura. Dói-me tudo aquilo que fica encurralado nos meus pensamentos. Fica tudo preso, tudo cá dentro, sem liberdade no labirinto infinito que é este espelho. Nada sai, porque há um medo. O medo de magoar quando sair em palavras escuras. Dói-me.
Pormenores, apenas pormenores. Pormenores que sempre podem ser despistados com uma máscara. Uma máscara com sorrisos e malmequeres.

P.S. Não há qualquer tipo de explicação, há coisas inexplicáveis e inegáveis.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Nada


Não há um rumo. Não há nada. Simplesmente há um silêncio. Um silêncio que nem chega a sê-lo, porque não há nada. Porque o silêncio é o nada, o silêncio é como o universo: não é inteligível e por isso não é nada. Mas este nada perturba-me. Estranho? O nada não me devia influenciar, porque não é nada, mas incomoda-me. Incomoda-me porque sei ouvi-lo e não gosto. Porque ele fala-me do nada e eu não gosto do nada. Ou se calhar até gosto.

Quando o nada se transforma no silêncio gera-se uma grande apatia.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

És um cubo.


As tuas faces visíveis são regulares, simétricas, íntegras; perfeitas até nas suas paralelas. Tu tens mais do estas faces; tens outras. Outras com mais encanto e mistério. São aquelas que estão dentro das que se vêem. Precisam de estar guardadas, porque são demasiado brilhantes para serem expostas à erosão. E tu estás lá dentro, intacto aos teus gestos, mero filósofo dos teus pensamentos e medos. Consegues estar ainda mais profundo. És capaz de ver as faces visíveis aos meus olhos e as visíveis aos teus olhos. E as que vês são as que te fazem bem, porque são aquilo que és, porque "ser-se" ser é conseguir ver-nos na perspectiva mais intrínseca.

O cubo cai. cai sempre que os radianos não são os verdadeiros valores. Cai mas não parte, porque não é de vidro, porque não és de vidro. Cada vez que cai as faces rodam. Rodam no sentido inverso ao tempo. E as perguntas precipitam na tua cabeça. Fica tudo do avesso e voltam as respostas. Respostas que muitas vezes não o são, porque não há respostas para tudo, porque tu sabes disso.

O cubo cai e és duplo: estás dentro e fora de ti. Dás um pouco do que tens para dar aos outros, é pouco, mas é quanto basta.
[Tens tanto para dar a ti]
É neste "dar aos outros" que mostras as tuas faces interiores, aquelas outras que fazem parte do "dentro" do teu cubo, aquelas que são perigosas, porque são imprevisíveis.
[É neste "dar aos outros" que para os outros és importante]
És 1 cubo. Um cubo com mais que 6 faces. Um cubo que cai e volta a cair, mas não parte, porque não é de vidro. És 1 cubo. Um cubo com tanto para descobrir.


P.S. *Quando se vê um cubo só se vêem 6 faces. Ele tem mais. Basta abri-lo e descobrir o seu interior ;)
*Tangerina falta o comentário...

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Espero por tanto



No meu monólogo não encontro as respostas que quero ouvir, porque eu não tenho as palavras, os gestos, a voz, o coração. Falta-me um pedaço, um pedaço que me faz falta e que me fugiu quando não o tinha nas mãos. Fugiu porque eu quis e eu deixei. Não por cobardia, mais por querer. É tão complicado. É como que existisse um íman que atrai e não atrai. Umas vezes sou atraída para o fragmento outras há que sinto uma enorme repulsão. E depois vem o monólogo sem frases. Só comigo, só eu. Eu sozinha a inventar histórias com olhares comprometidos e suaves. Mas, onde está tudo o que sempre quis ver, ouvir, sentir. Onde existe? Falta-me um pedaço. O pedaço. Aquele pedaço que partiu quando eu não tinha ainda coragem para saber que tê-lo era precioso e que não tê-lo era... era cinzento. E agora, neste impasse, espero por diálogos que não sejam silenciosos. Espero por tanto. E enquanto espero, falo com os meus olhos; eles dizem tanto. Dizem mais que as palavras mudas e que a própria razão. Falo também com os sorrisos nesta demora que tem fim no dia em se quebrar o silêncio como quem quebra um abraço. Espero por tanto...

segunda-feira, janeiro 07, 2008

era bom


Era sentir o fardo mais leve.
Era voar com as asas da borboleta.
Era pintar a tela de invisível.
Era decorar palavras com aquele sentido;

E era dizê-las,
Dizê-las sempre,
Sempre que eu as quisesse ouvir.

Era bom poder sentir, voar, pintar e decorar essas palavras para sempre.

Vos digo: era bom.

terça-feira, janeiro 01, 2008


O sonhar envolve-me outra vez.

Olho para as chamas que me aquecem e reparo que cada uma me mostra um instante vivido, um momento na memória perdido. Vejo pessoas importantes, desejos realizados, espaços de me bem-fazer, olhares sábios, lágrimas verdadeiras, sorrisos mais que perfeitos, viagens de amizade, palavras marcantes... Vejo mais além: vejo tudo aquilo que tenho fé que um dia possa acontecer.

Acordo.

- Vamos ver as estrelas!

P.S. *Óptimo ano 2008 para todos os que me lêem ;)

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Um pouco mais de luz


Um pouco mais de luz e a objectiva captava o momento perfeito. Captou apenas o normal, aquele comum aos meus e aos teus olhos, aquele que é baço aos meus e aos teus olhos, aquele que escurece ainda mais os meus e os teus olhos.


Lamento,
nem a música, nem o espaço, nem a paciência, nem a coragem aumentaram a luminosidade.
era pouca a claridade, era pouca a luz, era pouca a chama.
não poder focar mais o instante, por mais que desejasses.


Tudo falhou: a luz, o palco, a forma, o sorriso, a objectiva, o filme, a esfera, o gáudio.


Um pouco mais de luz e a objectiva captava o momento perfeito. Não captou. Temos pena.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

E não dorme.


O mesmo dia, a mesma tarde, a mesma hora, o mesmo minuto. Passa.
O mesmo dia, a mesma manhã, a mesma hora, o mesmo minuto. Passa como se vivesse.
O mesmo dia, a mesma madrugada, a mesma hora, o mesmo minuto. Passa como se não tivesse dormido.

E não dorme.

Vive sob os dias que existem, sob as pessoas que pensam existir e sob as coisas que não existem. Vive até falhar, até quebrar um passo, até errar um caminho. Vive só ali, naquela calha, naquelas paralelas. Vive aos olhos dos que não vêem e dos que estão cegos pela rotina.

Ainda assim não vive. Pensa que dorme. E não dorme.

Não dorme porque não pode, porque há sempre alguém que precisa de um destino, de um passaporte por escrever, de um conforto inexistente. Não dorme porque não pode, porque só há tempo para cruzadas e encruzilhadas, para velocidades e colateralidades. Não dorme porque não pode, não pode, não pode dormir.


E não dormiu ontem.
E não dormiu hoje.
E não dormiu... Dormirá amanhã, naquela madrugada, naquela hora, naquele minuto, naquele instante de fim.


P.S. *Quem dormiu ontem ou hoje comente ;)

sexta-feira, dezembro 14, 2007

O baú


Naquele dia decidiu relembrar. Foi buscar o baú das antiguidades àquele sítio. Estava pesado e cheio de pó (como a pedra do baú); esquecido no espaço e no tempo. Dirigiu-se para aquele outro sítio.
De olhos fechados abriu-o. Tantas cartas, tantas prendas, tantos desejos, tantas lembranças. Os rostos gelados, das fotografias embrulhadas em cetim, ainda preservavam os sorrisos quentes; a caligrafia, dos bilhetes e das cartas, ainda guardavam a suavidade da escrita; os presentes, de alguém, ainda protegiam o duplo carácter.
De olhos nostálgicos e sorriso melancólico guardou as promessas esquecidas do último bilhete.
Fechou o baú para outro dia, ele estava encerrado para recuperar memórias.

domingo, dezembro 09, 2007

Vive e gosta


A nossa vida é um caminho áspero, mas que dá gozo ser percorrido.

Começas por dar um passo, depois outro, e vais caminhando… Umas vezes mais rápido outras mais devagar. E neste caminho tens companhia, há sempre alguém que nos guia e acompanha: a família, os amigos, aquelas pessoas especiais… Enfim, há muita gente que torce por nós.

Por vezes, o Sol cega-nos tanto no caminho que achamos que estamos sozinhos. Mas depois vem o vento que nos sussurra ao coração coisas tão belas que nos fazem pensar naquilo que somos e no que queremos…

Pois bem, acredita que tu não estás sozinho na tua jornada, alguém espera que traces o teu caminho até ao fim sempre com vontade de viver, porque viver só se vive uma vez e esta vez tem de ser espectacular… Por isso, não desistas nunca! Tu tens valor, acredita! Há muita gente que precisa de ti, do teu sorriso, do teu abraço, da tua sinceridade, da tua vida! Vive e gosta ;)!

quarta-feira, novembro 28, 2007

Palavras abstractas


Apetece-me mentir ao dizer verdades, fazer um puzzle infinito e não me cansar, deitar-me e sonhar com o amanhã.
Este amanhã!... Incerto como um sopro, mas tão real como o Amor.

Apetece-me evitar o inevitável, corrigir o incorrigível, deter o possível.
Este possível!... Certo como um sopro, mas tão difícil como o Amor.

Apetece-me encontrar histórias em mim mesma, ouvir sem me falarem, inventar esboços de acaso.
Este acaso!... Incerto como sopro, mas tão culto como o Amor.


Apetece-me...


Apetece-me ser eu, ser tu, ser eles.
Estes eles. Surreais como Magritte, abstractos como nós mesmos.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Parece


Parece que é indiferente,
Parece que não nota que sente.

Parece que é distante,
Parece que não nota que cante.

Parece que é inexistente,
Parece que não nota que sente.


Tudo é feito de pareceres. Avaliamos tudo e todos, muitas vezes, de forma desacertada. Erramos. Erro.
Desculpa-me. Não sou perfeita. Sinto e vejo diferente.

domingo, novembro 18, 2007

O Pastor



"Pastor, pastorinho,
onde vais sozinho?

Vou àquela serra
buscar uma ovelha.

Porque vais sozinho,
pastor, pastorinho?

Não tenho ninguém
que me queira bem.

Não tens um amigo?
Deixa-me ir contigo"

Eugénio de Andrade


Ainda se diz que o menino acompanha o pastor no pastoreio. Ainda se diz que sonham juntos, brincam juntos, inventam juntos. Ainda se diz que procuram a ovelha como quem procura a pedra filosofal. Ainda se diz que ficaram amigos.

Os amigos ainda são o elixir da longa vida... - pensa o pastor enquanto olha para o sorriso da lua.

domingo, novembro 11, 2007

Sem êxito


Não eram apenas desenhos, eram também sentimentos. Diferentes dos comuns, iguais aos peculiares. Eram próprios e com um significado específico.
Os olhares exteriores tentavam decrifá-los com astúcia e depois da tentativa saíam contentes, achando que entendiam aqueles traços de sábio. Iam tão enganados. Deixaram-se levar pela tela da nuvem cinzenta capaz de ofuscar os olhos.
Mas houve uma pessoa, apenas uma, a quem ela não teve coragem nem força para os iludir. Porque ela sentia, via, pensava e satitava, do real para o imaginário, da mesma forma que o artista.
Coincidências? Apenas pessoas semelhantes que sabem que de nada vale ter astúcia quando se carece de sentir.


Sem êxito, a tentativa; sem êxito.


P.S. Este foi o meu 100º post ;) Por isso deixem uma marca...

segunda-feira, novembro 05, 2007

Na palma da minha mão



Pinto coloridos na palma da minha mão.


"Deus quer, o homem sonha e a obra nasce."

Fernando Pessoa


Porque eu sonho e porque sonhar faz e sempre fez parte de mim, vou continuar a pintá-los bem coloridos. E sempre que a cor se desvanecer, fecharei a mão e ela misturará texturas e luminosidades.


Pinto coloridos na palma da minha mão.


Na palma da minha mão há cor e na tua?

segunda-feira, outubro 29, 2007

Desejos



Sentou-se no baloiço a saborear aquele momento lunar. Cada vez que olhava para a lua via uma pessoa. (Criação da imaginação?). Ao princípio apareceram criaturas desconhecidas. Achou piada. (Talvez fossem as pessoas que iria conhecer num futuro mais ou menos próximo!). Continuou o baloiçar. De não conhecido passou a ver o sabido. Viu a professora primária que lhe trouxe memórias perdidas no tempo. Despertou-lhe um desejo enorme de voltar à infância. Baloiçava-se, ainda que inconscientemente, com o intuito de alcançar o céu. E num destes momentos "vai e vem" viu aqueles amigos esquecidos, mas tão presentes, que deixaram marcas. Lembrou-se de palavras ditas, de abraços sentidos, de angústias ultrapassadas, de prendas mais que simbólicas. E agora ali, sentada, no vazio da noite à espera de uma estrela cadente para pedir um desejo.

Mais noites assim se repetiram, houve muitos desejos pedidos e muito poucos realizados. Provavelmente não teve força para baloiçar até ao céu. Temos pena.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Por mim


Um. Dois. Três. Caminho para o mais infinito.
Será um abismo?
Não.
É algo apenas longínquo.
Não desistirei.
Por mim, seguirei os meus próprios passos sem medo de errar.
Só por mim.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Conta-me uma história

Conta-me uma história. Só uma. Daquelas com sabor a fantasia.

Ainda te lembras?

Fazia-las tão bem...

E agora?

Agora tudo mudou. Já não têm paladares sinceros. E magoam.

Percebes?


Conta-me uma história. Só uma. Daquelas com sabor a fantasia.

domingo, outubro 14, 2007

Comigo e sem mim


Ouvir e sentir.

Ali e além.

Comigo e sem mim.

Gritar silenciosamente e sorrir com aquela composição melodiosa feita num aperto, mas com um toque de mestre.

Extasiado, incoerente, jubiloso, surpreendente!

Ah! Como é puro o som do meu piano.

sábado, outubro 06, 2007


Pode parecer utopia mas certamente será uma quimera abençoada.

E a luz não se apagará.

E o sonho, esse, será um obséquio a todo o SER.

Sem mais.

domingo, setembro 30, 2007

Aqui



"Aqui começa o meu descampado Ou o meu jardim cultivado; Aqui começa a minha queda vertiginosa Ou a minha entrada gloriosa; Aqui, somente aqui, Começa o que jamais acabará aqui; Aqui serei muito ou serei pouco, Serei pobre ou serei louco, Serei charco, lago, rio ou mar Serei o que conquistar Aqui serei o que tu quiseres E o que eu quiser, Mas é aqui que tudo começa Aqui e nada mais do que aqui" - Vasco Gonçalves


Porque aqui há dois caminhos.
Porque aqui o "ou" torna-se tão imperativo como o verbo ser.
Porque aqui podes ganhar ou não.

domingo, setembro 23, 2007


Com um estalar de dedos o tempo volta a ser tempo.



Com a mente consegue-se parar o tempo. Tudo fica estático, nada se move, nada se cria. Capta-se tudo ao pormenor, o segundo é transformado em minutos. Esboça-se o que se vê e com os utensílios mais distintos traça-se a escala. Depois de o momento estar captado, com os primordiais detalhes, estalam-se os dedos. E o tempo volta a ser tempo e a dimensão espacial torna-se na real.



Com um estalar de dedos o tempo volta a ser tempo.


P.S. O filme "Cashback" traduz o que escrevi em meio de devaneio...
Ah a imagem é do filme ;)

domingo, setembro 16, 2007

Todos vão


Reparei que da minha memória desapareceram pedaços. Talvez coisas insignificantes. Não sei. Sei que uma miúda de seis anos se lembra de tudo. Tudo o que aconteceu. Todos os passos. E eu apenas me lembro de alguns momentos. Varri com uma vassoura imperfeita tantos acontecimentos. Guardei apenas o quase fim. A dolorosa caminhada dele tem espaços em branco na minha cabeça, é como se uma borracha tivesse apagado o passo X ou Y. Não o fiz de propósito, apenas o meu subconsciente ordenou que eu o fizesse. Porquê? Porque era melhor para mim? Talvez para eu me proteger, para não me lembrar das imagens que mostravam sofrimento? Não sei.
Tudo o que me lembro está tão desfocado que apenas sei que nele dor não faltou.
Um dia serei eu, outro tu, todos vão. Mas antes disso, não quero morrer aos meus olhos.

domingo, setembro 09, 2007

E a tua qual seria?


Uma imagem tem mais do que uma interpretação. Aos teus olhos é uma coisa, mas aos meus pode ser outra completamente diferente. E esta foto apenas tem em comum, na tua e na minha discrição, as cores e as pessoas.

Vejo duas pessoas com duas maneiras diferentes de olharem o mundo.Uma tem coragem e a outra não. Uma sabe que sem coragem jamais conseguirá enfrentar os seus medos; a outra apenas vê com a face escura que lhe cega tanto os olhos, contraditoriamente veste-se de branco, talvez para se sentir viva ou feliz, talvez. São diferentes, muito diferentes. Ainda assim, guardam ambas um segredo. Uma vê com os olhos e a outra com o coração. Continua segredo.
Esta é a minha interpretação.

A tua seria esta,
Vejo uma pessoa que ama outra e que por a amar tanto, tapa-lhe os olhos para que não veja este mundo do avesso. E o gesto que lhe faz é um gesto puro e sem maldade, digno de alguém que sabe proteger. Mas esta esquece-se que não se pode proteger tanto os outros, mesmo aqueles que amamos, porque quem protege demais acaba sempre por perder algo ou alguém. E por isso, veste-se de preto; o seu coração tem este temor. Os olhos já não sorriem e a mão, ainda que branca, não deixa transparecer o sorriso do olhar da pessoa de branco. E esta veste-se de branco não para se sentir mais viva ou feliz, mas sim para se sentir com mais esperança. A esperança de que a pessoa protectora um dia mudará e que a deixará ver o mundo tal como ele é, mesmo com tudo o que existe para além de um olhar.


E a tua qual seria?

terça-feira, setembro 04, 2007



“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos”

Principezinho, Antoine de Saint Exupéry.


Ainda me lembro quando quebrei o silêncio na capela para dizer esta frase. Um livro espectacular que nos alerta para a necessidade de cativar.
Cada um de nós só conhece bem aquilo que cativa... E cativar significa criar laços!

Porque há pessoas que têm para sempre um lugar cativo no meu coração. Essas sim são importantes!

quarta-feira, agosto 29, 2007

Vontade


Não basta pegar numa folha e numa caneta para escrever. Não basta pegar num carro e num mapa para sair. Não basta pegar num livro e num marcador para ler. Para que baste é preciso vontade. Sim, vontade! Aquele fragmento que existe em nós, mas que em dadas alturas não se manifesta. Sim, não se manifesta! Depois acontece algo, como um sonho, uma visita, uma palavra, um sorriso, e ela volta. Sim, volta! De um momento para o outro sentimos vontade de escrever para reflectir, de sair para espairecer, de ler para sonhar. Num segundo a vontade renasce. Sim, renasce! E nós ficamos dispostos a fazer isto ou aquilo, a dizer aquilo ou isto. A verdade é que a vontade é imortal, uns dias morre como se não tivesse vivido e outros nasce como se não tivesse morrido. E nós é que permitimos este viver e morrer, porque cada um de nós é ser de vontade! Sim, de vontade!

quarta-feira, agosto 22, 2007

Por vezes,


Por vezes, temos medo de deixar outros entrarem no nosso mundo, porque achamos que ele é demasiado precioso para o partilhar com alguém e também porque achamos que os outros podem não gostar do que vão encontrar. A verdade é que no mundo, que só a nós nos pertence, existem muitas caixinhas repletas de surpresas. Estas podem ser más quando, por exemplo, nos deparamos com os defeitos dos outros ou muito boas. E as coisas boas aparecem quando menos esperamos (porque no dia em que esperámos o seu aparecimento, elas não apareceram).

Por vezes, descobrimos que atrás de um sorriso obrigatório há um sorriso sincero e bonito e que atrás de um olhar cansado há um olhar puro que reflecte toda a transparência de um ser. E isto, considero eu, uma surpresa boa.

Por vezes, basta abrir um bocadinho a tampa da caixa para que saia o que de melhor há em nós. E assim marcamos os outros, deixamos marcas que nem o mar ousa apagar. Somos um conjunto de caixas e caixinhas que nos caracterizam em momentos!

E agora não tenhas medo! Abre a caixa que melhor se adequa! Tu tens valor!

Descobre-te a ti e aos outros!

segunda-feira, agosto 13, 2007

V de vitória


Quando tudo parece estar a correr bem, acontece algo. Um acontecimento pode mudar tudo, até mesmo aquilo que sentes. Podes achar que tudo o que disseste foi em vão, mas essas palavras fazem parte de um passado onde os bons momentos ficam guardados. Podes achar ainda que a vida te tramou, mas não é verdade. O que é verdade é que o que aconteceu te fez aprender e perceber como algumas pessoas são verdadeiramente. E a vida é isto: um jogo onde se aprende, ganha e perde. Há que saber saborear a derrota e também saber fazer um "V" de vitória! Não fiques triste, não vale a pena. O que aconteceu tem uma explicação; podes não saber agora interpretá-la, mas um dia saberás o porquê das coisas. Sente-te livre do passado, abre um novo capítulo e projecta-te no futuro. Um dia serás feliz!


P.S. *As pessoas não nos desiludem, nós é que nos iludimos; olhamos para elas de uma maneira diferente do que elas são na realidade!
*Imagem do filme "Step up".

segunda-feira, agosto 06, 2007

À procura de mim


Navego nos leitos do rio do sonho
E nada encontro.
Remo, remo, e continuo a remar
Mas para quê tanto esforço?
Já nem sei de onde vem esta força
Força que me invade a alma, o coração.
Talvez venha de Deus, ou de mim mesma!
Não sei... Já nada sei...
Sei que me procuro,
Que me escondo,
Sei que já não sei mais quem sou...
Para vós sou a mesma
Mas eu mudei, acreditem que mudei!
E é no reflexo deste rio
Que eu vejo a minha transparência.


Escrevi este poema há dois anos. Os sentimentos expressos mudaram. Ainda ando à procura de mim e andarei, porque hoje sei que me quero descobrir em plenitude. Será possível? Quem sabe... Tentarei!