sábado, setembro 15, 2012

Explicação


Há no mundo da matemática e da “Normalidade” uma curva gaussiana que ousadamente nos mostra a banalidade dos seres e a “anormalidade” de outros, daqueles que fogem ao padrão e são, por isso, um desvio do padrão.

Um desvio tão incompreendido. Um desvio que faz ser sensível e chorar pelos sinais que aparecem, mesmo subtilmente. Um desvio que é tão difícil de viver pela complexidade dos pensamentos, das razões que damos às coisas. Um desvio que se transforma num desafio e numa aceitação dos 95% normais.

Hoje, procuro entender como é possível haver uma potenciação de seres que tanto divergem e que, curiosamente, parecem não se intersectar na linha.
Sabe-se que uma linha é um conjunto infinito de pontos, que saltitam de um lado para o outro. Sabe-se que há saltos momentâneos do intervalo dos 95% para o de 5% e do de 5% para os de 95%.

O que hoje procuro descobrir é se há saltos destes abruptos para sempre. Numa aceitação plena da diferença clara de gostos, de sentidos, de sonhos, de desejos.
Acredito que há e que é possível a linha manter-se equilibrada, sem muitos zig-zags. Mas para isso é preciso que a soma seja a unidade: 0,95 +0,05. Se não se conseguir a soma, não vale a pena prolongar a estadia no intervalo que não nos pertence.

Há que voltar à raiz e procurar a explicação do 5% ser tanto e ser capaz de criar cumplicidades especiais, embora possa doer num final.

No intervalo da “anormalidade” tudo é mais trágico, tudo é mais feliz, tudo é mais tudo. Porque aqui, o mais, é uma curva crescente do que somos. E neste intervalo, crescemos sempre para mais infinito e procuramos sempre quem o potencie mais e mais.

Acabo de te explicar.

segunda-feira, setembro 03, 2012

São as horas que nos separam


(Imagine-se o tempo em desagregação)


São as horas que nos separam. Numa desculpa ridícula de que o tempo é causador de insónias. Agora é hora de eu ir dormir como as crianças pequenas. Agora é hora de tu acordares como as pessoas grandes. Qual é a diferença destes tempos? Um lê a história para outro adormecer. Não há uma simbiose quase perfeita? Um desejo de se adormecer com vontade de sonhar com finais felizes? 

Aquela rua inspira-me, com o Sol a bater-me na cara. Sei que é tarde e sei que são as horas que nos separam. Como se houvesse um fuso horário nos nossos relógios. Como se aquela rua só existisse para mim e para os meus passos e para os meus pensamentos. Quantos textos já escrevi nela a voar? Em quantas pessoas já vi histórias que podia inventar?

Vou a correr sempre e vejo-te a ti bem devagar, sem a pressa de outros tempos. Aquela rua também tua todas as manhãs num trajecto que não sei. Apenas vejo a dificuldade e a persistência da tua história. Ainda é tempo de viver, dizes-me tu em silêncio, pelo teu olhar fixado nos chinelos enormes e nas mãos disformes. 

Que ninguém se ria de ti e do que és. Evaporas-te também numa rua só tua e imagino-te a voar. Já não te vejo mais e sei que são as horas que nos separam, numa distância que o tempo, que antítese, há-de resolver. 

Hoje são apenas umas horas, amanhã uns dias. E quando forem os anos, aquela rua já não existirá.

P.S. A música que deambula com os meus passos... http://www.youtube.com/watch?v=F8XzQRhvGjQ

terça-feira, agosto 21, 2012

Sombras II


(Foto de minha autoria)

Uma nova teoria da psicologia. As sombras. As sombras que trazemos e que não vemos. As sombras que os outros veem e que não nos dizem que temos. Por medo ou por acharem tão trivial. As sombras que dormem bem debaixo da nossa almofada e que entram nos sonhos de olhos fechados. As sombras que ignoramos e que nos fazem chorar, por sermos, realmente, partes escondidas dentro de nós.

As sombras que não cuido por ter a certeza incerta de que não fazem parte de mim. Enquanto vagueio nos meus pensamentos, nesta noite que me inquieta a alma, imagino-as a seguirem-me sorrateiramente e a esconderem-se sempre que olho para trás para confirmar a mentira de que elas não existem.

E, por isso, finjo que não as conheço, numa dissimulação emocional tão fácil. Sou sempre animosa quando sonho que é tudo perfeito.

Espero que, um dia, elas se apresentem através de algo ou alguém e que eu goste de privar com elas. Nada mais haverá a ignorar quando (quase) completar o conhecimento do que sou.

P.S. "Ser Capitã desse mundo/Poder rodar sem fronteiras/Viver um ano em segundos"... https://www.youtube.com/watch?v=exFdcUSfuqY&feature=related

quinta-feira, julho 12, 2012

Invisibilidade do tempo


O tempo tem as voltas certas no relógio invisível que me acompanha. Este ano as voltas foram muitas e os segundos de vida foram horas de silêncio. Estive na margem de rios e à margem do meu próprio rio. Estive sentada, como espectadora. O barco estava sozinho e seguia de modo imprevisível. Não tinha vontade de remar nem de ir com a corrente. O sentido contrário sempre me aliciou mais. Por mal, verdade seja dita. Pensava numa estratégia, mas não conseguia. A certeza de ter que voltar ao barco, bloqueava-me a luz da lógica natural do meu raciocínio. Os “como queria demonstrar” esqueceram-se de mim, e os planos que detalhei voaram. Tentei apanhá-los, em vão. Mantive-me quieta, e vi sonhos a serem arrancados com uma pedra. Com uma pedra que seca a água de rios. Como se os absorvesse todos dentro dela. Uma pedra de dor. Uma pedra feita de um buraco negro. Que aglutina a luz.

Foi à margem que vos acenei para sempre. Parti para um outro rumo, sem a certeza dos meus sonhos, das minhas vontades. Parti, porque era hora e estava a ficar noite. Não vou com a corrente, mas também não vou contra ela. Percebi que é possível navegar por entre as duas e chegar no tempo certo ao propósito.

E o relógio continua. Agora, as horas de vida são horas de crescer.

P.S. The Sun, The trees :) http://www.youtube.com/watch?v=6oTJmiQ1eRE

sexta-feira, junho 08, 2012

O dia não é agora


O dia não é agora. Perdeu-se a decisão no ar. Paralelas desenham-se com dedos a volutear num lenço branco. Os olhos fechados, à procura de algo pequeno perdido. O que se esconde numas costas voltadas não pertence à verdade. Não há olhares se eu não os olhar frente-a-frente. Mesmo que amiúde eu não saiba ler as mentiras. Se interpretar fosse a escrever seria mais fácil para mim.

A par de tudo isto.

O dia não é agora. Não há ar para o balão voar. A física evaporou-se e tudo está asfixiado. A água tem o que é preciso, o oxigénio e as palavras. Maresia traz de volta a vida. Perfumes de sonhos e ritmo. Molha-me os pés, faz-me cócegas. Dá luz ao cérebro e a todos os sentidos. Que magnificência respirar cada fruto das árvores que renascem num amanhecer de hoje.

A par de tudo isto fica um pedido.
Um número do avesso da minha alma, que possa ser o símbolo do sempre. 


P.S. Esta traz de novo ar e vêem-se muitos balões no céu: http://www.youtube.com/watch?v=dROJvBiHrnU

segunda-feira, maio 21, 2012

Sombra lado-a-lado

Quando duas sonhadoras se juntam, o resultado é inesperado e um sorriso certamente.
Eis um poema, a duas, de um sonho que tarda num por-do-sol que ainda não se ouviu.




Sabes que aqui estou.
Em bicos dos pés para que não oiças.
Sussurra aquilo que não quero ouvir.
E não me vejas.
Não queiras ser o que não és.
Sê a descoberta dos sentidos dos meus pés, dos silêncios das minhas palavras.
Fica forte, forte e inteiro, sê em mais além.
E vê a minha sombra que sempre te acompanha.
Num pasodoble a um dramatizado.
Num tango a uma valsa.
Em movimentos rotatórios do sol que me cria, a mim, sombra de mim.
Para no fim, no Sol-por, cairmos de braços abraçados, com a certeza que sempre nos vimos. 


Catarina & Ângela


P.S. A música de fundo é a história do Homem: http://www.youtube.com/watch?v=7Qqtqj1odfw

sábado, maio 05, 2012

O que chegámos a ser


Mãe, tenho saudades do que não fomos. Das conversas que não tivemos, das palavras que não dissemos, das brincadeiras que não fizemos, das gargalhadas que não demos.
Mãe, tenho saudades do que não foste. Das histórias que não me contaste, dos medos que me detiveste, das flores que não me deste.
Mãe, tenho saudades do que não fui. Dos sonhos que não te mostrei, dos beijinhos que não te dei.
Agora, queria zangar-me contigo e perguntar-te por que é que somos assim. Agora queria dizer isto tudo com os olhos de lágrimas e com um sorriso de bem-te-querer. Não me posso esquecer que a nossa ligação é umbilical e por mais voltas que dermos vamos gostar sempre uma da outra. As saudades serão sempre grandes, mas lembrar-te e tu lembrares-me será saudade do que chegámos a ser.
Um amor como este é para sempre. E sabes? O sempre é muito tempo. Eternidade.
Para ti, Mãe.
Catita

domingo, abril 22, 2012

O mundo inteiro


Sem imagem, porque  o mundo não é a 2D.

Tenho presente ser. No voo tranquilo de um sonho, a saber sentir o vento da nossa terra e a escutar o silêncio do nosso âmago. Um toque de mansinho, de aconchego na chuva que cai num Inverno passado que se faz presente. A liberdade do futuro que se toca infimamente nas cordas de uma guitarra oca. Nada será mais meu até chegar ao alto do mundo. Não vou com pressa e não leio jornais para mapear a viagem. Vou por mim, pelos meus instintos, pelo que dou sem pedir nada em troca, pelas pessoas que me dão o que não peço ou que peço no meu silêncio. Vou devagar a cantarolar e a escrever. A escrever muito mentalmente e sem a coragem ainda de transpor tudo para que leiam quem sou eu afinal. Ou simplesmente como queria que tudo fosse. Levo cores na algibeira para lançar lá do alto quando chegar. Ainda não sei se demoro. Não me quero preocupar com isso. De Nada valem mãos entrelaçadas quando o eco da vida não repercute som algum. Não nos cansemos. Serei Ricardiana, de certeza. Serei também Florbela e Eugénio e Sophia e Neruda. E serei também uma espera resiliente. Alguém me receberá quando eu acabar o caminho. Não estarei cansada e serei capaz de voar e ver o mundo inteiro. Sim, o mundo inteiro. E aí serei o que sempre quis ser.

P.S. "Happiness is only real when shared"... http://www.youtube.com/watch?v=32Js2Ef5Ojg

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Borboleta invisível


Via-te pousar com leveza no fundo daquela rua com cheiro a mar. O vento era frio e eu começava a gostar de saber que todos os dias iria olhar para o semblante azul que morre na areia da vida. Havia poucas gentes naquela foz. E estava Sol. Um Sol de Inverno, saboroso, o que mais gosto de sentir e tactear. Continuava a perseguir-te com o olhar. E via o rumo que levavas. Era-te tudo favorável e as nuvens longe apareciam. Não estavam muito carregadas e quando chegassem, depressa azulariam. Era nisto que acreditava e, eu sei, que sonhava.

Inesperadamente, Deus quis que aquela borboleta branca desaparecesse do meu olhar. Não me distraí com nada: absorvia tudo em igual proporção; simplesmente, ela parece se ter tornado invisível. Procurei-a enquanto caminhava a ouvir os passos do mar. Perguntei a quem por mim se cruzava se a tinham visto e ninguém a conhecia. Só eu e aqueles que em mim acreditavam.

Com a inocência dos dias, comecei a ponderar a existência da transparência também nas borboletas. Elas tornam-se invisíveis quando percebem que alguém as quer muito admirar. Se essa vontade perdurar, ela acaba por aparecer de novo e perde a sua capacidade de se metamorfosear. Se tal acontecer, ela permanecerá para sempre junto de quem a quer com as suas asas brancas a bater palmas e a sua voz a parafrasear não desistas.

Ainda não a voltei a ver. Mas oiço o bater das suas asas e a sua voz. Por agora também me encontro invisível.

P.S. Lord... Hold my hand...

http://www.youtube.com/watch?v=MwyH_N1YVNo&feature=related

sábado, janeiro 21, 2012

Sem fim

Não sei que mãos são estas. Que ainda procuram um sonho no entardecer. A queima da luz dilacera-se cá dentro, num sempre que ainda não sei. Sei que está escuro e não é só lá fora neste céu sem Lua. Sei que ainda vagueio em significados que agora me parecem perdidos e sem qualquer nexo neste raciocínio natural. Já não sei o que houve, quem houve, como houve, se houve. Perdi-me nas minhas próprias teias naif, nos meus próprios acessos ao mundo que idealizo. Perdi-me para quem sabe me encontrar. Para saber o que quero, quem quero, como quero, se quero.

Talvez apenas queira que as minha mãos sejam um museu próprio capazes de pintar auto-retratos. Não há beleza maior do que saber conhecer-se e gostar de se pintar. Talvez apenas queira ficar a contemplar o que em mim me abraça neste silêncio eterno e sem fim. O infinito sempre me encantou.

P.S. *Hoje, neste hoje, “we will be happy” :)

* We are god of stories... http://www.youtube.com/watch?v=jZhQOvvV45w

sábado, janeiro 14, 2012

The Lady

Não quero ser uma cópia tua, mas quero ser igual a ti na minha autenticidade. Quero ser resiliente como tu. Quero saber procurar a minha liberdade na opressão. Quero saber ler os eméritos e aprender com eles uma nova linguagem. Quero ser poucas palavras, mas quero ser palavras que perdurem. Quero ser o teu silêncio e a música do teu piano na ignorância de tantos. Quero não ter medo de atravessar espingardas apontadas à minha razão. Quero ter a tua fé no ser humano. Quero ser igual a ti a amar o que me é dado, os que fazem parte de mim e aqueles que acreditam igualmente neste Amor. Quero ser as tuas lágrimas de saudade. Quero ser os teus sorrisos de bem. Quero ser um abraço apertado de distância com desejos que o fim comum será alcançado. Quero saber estar presente, sem o estar. Quero ter flores no meu cabelo e deixar que o seu perfume evada até aos céus. Quero ser a tua simplicidade na complexidade dos que não a compreendem. Quero ser o teu sonho de um mundo de paz.

Tu, uma "orquídea de aço" e eu, un coquelicot Rouge.

P.S. *E, tu, que flor queres ser?

*Porque a música que entoava era a sua liberdade...http://www.youtube.com/watch?v=NgQUBecM7OM&feature=youtu.be

sábado, dezembro 31, 2011

Raízes



(fotografia da minha autoria)

Se fosse possível resumir um ano a uma palavra, resumiria a raízes.

Raízes que nasceram. Novas, com vida e com vontade de crescer.

Raízes que cresceram. Já nascidas e que cresceram saudavelmente na terra que suporta os meus pés.

Raízes que morreram. Breves ou Médias ou Longas ficaram sem ar ou sem espaço na enorme densidade do que acontece.

Raízes que adormeceram.

Todas são raízes. Todas permanecem quer com ou sem vida. Alimentam-me as que nascem e crescem. Mas, todas me suportam e me fazem prosperar. Todas as minhas raízes estão voltadas para o céu. Como a árvore que vi e que toquei. Como os ramos à espera de florir.


P.S. *A vida é marvilhosa com todas estas raízes... http://www.youtube.com/watch?v=7l74d1fmZbw

*Um pedacinho de 2012... Seria importante eles saberem falar? Falar não é mais do que uma expressão oral do que pensamos. Mas há outras formas de falar. Eles sabiam escrever numa linguagem muito própria, que apenas os cinco conheciam. Também sabiam sorrir e rir, e estas duas manifestações também são falar. E será que seria importante eles saberem ouvir? Ouvir não e mais do que percepcionar o que nos rodeia. Mas há outras formas de ouvir. E eles sabiam ouvir com o coração.

domingo, dezembro 25, 2011

Natal é agora

Hoje abraça-me este poema do Ary dos Santos...

"Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher"

Hoje também me abraça esta voz...
http://www.youtube.com/watch?v=C1g5qHxSoF4

Natal é agora :)


terça-feira, dezembro 13, 2011

Ser por si só


Adormecer num silêncio tranquilo e deixar-me estar. Acordar com pássaros a bailar na minha janela e saber, saber por si só, que o que está lá fora é apenas o meu presente. O único presente que sou audaz de conjugar.

Um agora com reminiscências de pretéritos perfeitos e imperfeitos. Um presente que me mostra que não importa uma conjugação plural se apenas é dita no singular. Um hoje que transforma pormenores na sua percepção e na desconstrução do que eles são. Um já de acasos com duas probabilidades simples do sucesso ou do insucesso. Um imediatamente de guardar tudo outra vez em mim e perder a chave. Um depressa com a aceitação da mudança para um outro alguém como que uma desculpa à solidão.

Um tempo que tende para infinito e que se confunde com o futuro. Um futuro que é este agora, este presente, este hoje, este já, este imediatamente, este depressa. Um futuro com mais conjugações de felicidades. É o que desejo à conjugação de ser.

Por isso, ensina-me, pequena ave da manhã, a ser.


P.S. Hoje fica esta: http://www.youtube.com/watch?v=K1sZpmBnJuw :)

domingo, novembro 13, 2011

Corre


Corre. Corre depressa. Não olhes nunca para trás. Corre. Corre o mais que puderes. Não tenhas medo se de noite não houver lua. Não olhes para as pedras, elas não te farão cair. Não olhes para o céu, o Sol poder-te-á cegar. Olha sempre para a linha do horizonte. E não desistas. Continua a correr. Não te vais cansar. Nunca nos cansamos quando corremos pela nossa essência. O teu caminho não era aqui. A tua casa não era esta. Era demasiado grande e complexa para ser vivida. Corre. Vai mais longe. Procura uma casa pequenina numa árvore para passares as noites. Acordarias todos os dias com o “passarar”. Ou então procura uma casa pequenina numa árvore à beira-mar. Seria o ideal. Adormecerias todas as noites com o “marulhar”. De manhã, levanta-te. Lava a cara com água salgada e espreguiça-te. Prepara-te para correr. Corre. Não leves mapa. Deixa-te guiar pelo teu instinto. Se tiveres que parar durante o dia não confies em que não conheces. Não te iludas com um doce. Quem é humilde apenas teria para te oferecer um copo de água e um pedaço de pão. Se conheceres alguém que apenas te ofereça isto dá-lhe de ti e pára de correr. Ajuda-lhe a semear o que for preciso. E fica à espera até veres os frutos que deu. Colhe tudo de bom agrado. Despede-te com um sorriso enorme e volta a correr. Corre agora mais devagar. Já não haverá urgência. Já descobriste parte da simplicidade da vida e da solidão. Agora, podes ir a andar e desfrutar a música dos teus passos. Estarás perto de encontrar a comunhão dentro de ti. Se fores capaz estarás bem contigo e vais gostar de viver de ti para ti.

A segunda parte da viagem não é fácil: saber encontrar-se dita a cura do que vai na alma. Mas o mais difícil é decidir partir e procurar a identidade do eu.

P.S. Hoje a música que embala é esta: http://www.youtube.com/watch?v=7LlKoQAvXUc :)

terça-feira, novembro 01, 2011

Vida

É paradoxal esta existência. Parecem estalinhos nos ouvidos a pedir para acordar quem morre dentro de cada um de nós. Como se fosse apenas um adormecimento demorado. Morre-se assim dentro das pessoas sem sabermos se algum tempo vivemos dentro delas. E Morrem dentro de nós da mesma forma. Não se sabe porquês, quandos, comos. Não há culpas ou desculpas. Simplesmente acontece. Um acontecer da razão, da dor da ciência. Ela diz-nos, com frieza das formulações das hipóteses, que nem todos têm o direito de viver dentro de alguém… Já bastam os imaginários, não? E estes, a maioria das vezes, acabam por desaparecer também. A morte das pessoas nas vidas caminhadas acaba por ser sinónimo de memórias perdidas e encontradas. Há dias que, por qualquer coisa, nos levam a dar vida aos que morreram. Uma panóplia de sentidos invade a alma e dá alento a dias cinzentos. E eu já não tenho medo.

(Minto. Tenho medo de morrer em alguém que em mim ainda tenha vida.)

P.S. *Também nos devemos lembrar de quem vive e querer que vivam felizes para serem todos lembrados no dia de hoje com muitos sorrisos.

*A música que fica... http://www.youtube.com/watch?v=wZd8bVY8Kk8... Abrir a janela e voar :)

sexta-feira, outubro 07, 2011

Poetas



Há poetas que criam buracos no chão. Daqueles que são para cair e ver o que há dentro da Terra num voo precipitado. Nessa viagem ao âmago da Terra os relógios dissipam-se e desaprende-se a contar segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos de silêncio. Na viagem há música e há pistas para se encontrar uma luz que guie até à explosão de sentidos. Os compassos de múltiplos de oito podem ser uma delas e as memórias também. Elas aparecem como fotografias desconhecidas: em que apenas se vê e nada se sente. Cada uma que vai aparecendo tem algum detalhe, algum sinal. Ainda que indistinto é possível saber ler com as mãos cada imagem. No adejo os braços e as pernas estão leves. São uma pena e uma pedra sem a força da gravidade. Também não há frio, nem calor. Tudo parece ser uma ausência: como o branco ser ausência de cor. Parece estranho haver na mente e no chão estas lacunas. Mas, a verdade é que elas existem sempre que um poeta assim o decide.



Há poetas que criam um fim e uma nuvem fofa para descansar. Há poetas que se esquecem que criaram buracos no chão e que há pessoas perdidas no meio de algo que ninguém vê. Há poetas esquecidos, de facto. E há outros que todos os dias se lembram de esquecer.





P.S. A Chuva que faz falta também pode ser um dos detalhes:

sábado, setembro 24, 2011

o que se pensa


Há sempre noites em que gostava de escrever mais sobre o que vai em mim. Sobretudo sobre o que penso. Acabo por não fazê-lo. Às vezes magoa pensar de mais. E cada vez que escrevo penso muito. Na efemeridade desta existência e das partes que morrem em nós bem antes de partirmos para uma eternidade que teima em ser um conceito abstracto. No Amor que é preciso dar. No Amor que é preciso receber. Nos pólos magnéticos que cada um de nós é. A atrair os diferentes e a repelir quando se é igual. Na estranheza de quem desiste e chora. Na similaridade de quem arrisca e sorri. Penso nisto tudo e volto a pensar. No porquê de ser assim. Nos sinais que teimo em adivinhar e que já não existem. No que me leva até a Sol e me faz cegar. No que me leva até ao Céu e me faz sonhar. Chego sempre à mesma conclusão. Não sei nunca definir nada e por mais que treine vou ser sempre assim. Ambivalente em tudo: perto, longe e princípio, fim. E se for para sempre este o ciclo? Por mais que eu não queira. Por mais que eu sempre tenha sonhado com laços como os da história que só em grande a soube ler.

E se eu simplesmente estava a tentar escrever sobre perdas que fazem parte de mundos a cores reais, um dia quando os pólos magnéticos se inventarem sem partir, eu sei que aí já não saberei mais pensar. Mas, saberei sempre sorrir para a pequenina que é tão grande e que me faz acreditar que ainda consigo ser uma criança.

P.S. Há sempre boas descobertas como esta: http://www.youtube.com/watch?v=T0yaQ20dpWI&feature=related

terça-feira, setembro 06, 2011

Um novo grafismo

Queria pontos de afirmação no que pensava. E, por isso, fui à procura deles. Não queria vírgulas, pontos e vírgulas, pontos, pontos de interrogação, pontos de exclamação, reticências. Não queria nenhum destes sinais. Queria um diferente. Um que acumulasse as funções de todos. Um que não fosse preciso mudar consoante o que se diz, escreve ou sente. Um que se interpretasse individualmente e que exprimisse uma pausa prolongada ou pequena ou intermédia, uma pergunta, uma ironia, um sorriso, uma surpresa e algo incompleto. Tudo num único desenho. Comecei a desenhar e a procurar definir este novo sinal gráfico.

Que me perdoe a gramática perdida no tempo se anseio pelo vanguardismo desta nova arte.

Olhei para a Lua, invisível no azul do céu da noite, e ela contou-me como era o grafismo que queria esboçar. Sorri. Era óbvio. Uma imagem que não gosto de usar, mas que traduz tudo e mais alguma coisa. Umas vezes cheio, outras vazio. Umas vezes feliz, outras triste. Umas vezes tranquilo, outras descompensado. Consegues adivinhar?

Hoje, esta noite e em muitas noites passadas, eu queria ter escrito sobre as saudades que tenho do sabor de um concerto de inverno que tanto me fez sonhar e aquecer. Não consegui escrever sobre ele. Ou melhor, escrevi. Naquele concerto procurei pelo sinal. E só hoje, esta noite, encontrei a sua forma.


P.S. Uma das músicas que descobri e senti: http://www.youtube.com/watch?v=d7dsOw_45JM

quinta-feira, agosto 25, 2011

vaivéns

Quando uma água salgada é sinónimo de fim, o silêncio visita as palavras. Ficam outra vez diferentes. É uma visita inesperada e nunca se sabe, ao certo, quando ele parte outra vez em viagem. Mas, um dia parte mesmo e leva com ele saudades. Mas, num outro dia, volta e traz com ele nostalgias. Diz-se que, nestes vaivéns, o silêncio visita livros, cadernos com escritos à mão e músicas. Também visita Invernos e ventos gelados na face e também visita Verões e sóis quentes na face. Traz sempre consigo pequenas vozes doces que fazem companhia como um qualquer quadradinho de chocolate derretido nos meus sonhos.

Um sonho e Um nada.

Um nada. Um nada que se transforma, sem sabermos como, em tudo. Um tudo que também se pode transformar em nada. São as disparidades desta vida que nos fazem ser a soma de dois igual a 1 ou por qualquer razão, não trivial, 1 + 1 é igual a 2. Não sei se se procura ou se encontra. Não sei o que dói mais: saber tudo ou não saber nada. Ainda assim, acredito que se cresce e que se sorri por outros pedaços permanecerem em nós, para um sempre.

P.S. *Decidi acrescentar umas frases ao que te escrevi há uns tempos, little Angel, acerca de nadas e de tudos.

*A música que inspira hoje…

http://www.youtube.com/watch?v=8-84_9ube78&feature=related