Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Ritmar a nossa vida com memórias materiais, e não apenas mentais, é lembrar sempre de alguém que passou pela nossa casa “Ser pessoa”. É deambular pela história de vida e sorrir por ler uma carta, por ver uma fotografia, por cheirar um perfume, por ouvir uma música. É saborear a nostalgia de tantos momentos que vagueiam pelas divisões da nossa casa.

Gosto de enriquecer a minha casa como todos aqueles que me cativam com o agrado de uma surpresa boa. Gosto também de partilhar a minha riqueza pessoal especialmente com quem me acolhe e com quem eu acolho. Para mim, estes meus gostos, são importantes. São uma das minhas formas de reflectir como vivo a amizade.

Com tudo o que experienciamos marcamos no nosso mapa todos os pontos importantes. Tenho a certeza que tudo valeu a pena e que no fim do caminho o mapa de cada um terá pontos comuns com outros mapas. São estes pontos de intersecção que alentam a minha vontade de existir comigo e com os outros.

Tenho dito.

P.S. *Nós somos tanto... e o sonho permanece :)

 
posted by Catarina at 11/13/2009 12:30:00 PM | 2 comments
Sábado, Outubro 17, 2009

Frio. E os teus abraços distantes de calor. Mel de dias de sol e manhãs frescas do teu olhar.

Frio outra vez. Cobertor castanho de pelo macio para adormecer.

Limpar da memória todo aquele tempo de sonho e viver o que foi escolhido, o que foi imposto sem eu saber bem por quem.

Perfume de primavera e folhas de Outono. Folhas amarelecidas iguais ao esquecimento e à ausência.

Cascata de água gelada e simples toque de aproximação. Que mais será um princípio?

Ser um rio ou uma nuvem ainda é a minha dúvida. Ontem fui um rio, ontem fui uma nuvem a quer chorar.

Hoje sou uma perla a bailar num mar, uma metamorfose a eclodir no céu.

Pés de cristal não partem e vozes de encenação não se ouvem.

Continuarei calada sem escutar qualquer murmúrio de tuas palavras até, quem sabe…, o nosso juízo final.

 
posted by Catarina at 10/17/2009 07:44:00 PM | 1 comments
Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Estávamos sentados e sentíamos que íamos partir. Eu adivinhava a distância, tu a ausência que se avizinhavam. Aquele relógio contava dois minutos. Foi o instante de tempo que mais rápido passou por mim. O ponteiro dos segundos acelerou muito e num ápice largamo-nos como se fossemos duas peças partidas de um só puzzle. Eu entrei, tu caminhaste lado-a-lado com os teus pensamentos e o ponteiro retomou o seu ritmo. Eu fiquei comigo e com as minhas palavras e deixei-me adormecer num sonho inacabado.


Hoje abri os olhos.

Reparei que apenas um pedaço do sonho existiu.

Hoje esqueci aquele relógio e as últimas palavras recônditas ao ouvido.

Hoje o dia estava cinzento e todo aquele fado tocado imperava nos assobios das aves.


Lembrar-me de tudo e deixar páginas em branco é ter medo de reescrever uma história de crianças. O vento irá levar-me para onde ele quiser e para onde eu quiser... não sei se irá voltar. Tudo ficou como uma flor a querer vida.

 
posted by Catarina at 9/18/2009 06:56:00 PM | 1 comments
Domingo, Agosto 09, 2009

(Sem imagem, porque há memória)


Se tudo se assemelha a um livro, um novo capítulo foi começado a ser escrito. Desta vez com novas cores e com uma nova caligrafia. Deixou tudo de ser racional e amargo. As folhas ganharam uma nova essência. Uma essência inocente e magistral. O livro está mais rico, com uma alma de sonho e com poucas reticências. Uma borboleta eterna começou a ser desenhada e sorri cada vez que adivinha os pensamentos dos compositores de histórias com sabor a água de escorrega. Não há poemas, mas há poesias e há prosas com mil dons de perfeição. É uma história muito mais do que original.

Cheira a natureza e tem gosto a manhãs de Sol. Uma delícia para quem sabe ler.


P.S. "De quantas graças tinha, a Natureza/Fez um belo e riquíssimo tesouro,/E com rubis e rosas, neve e ouro,/Formou sublime e angélica beleza." Luís de Camões

 
posted by Catarina at 8/09/2009 09:14:00 PM | 2 comments
Terça-feira, Junho 23, 2009

O caminho era coberto pelas ramagens das árvores seculares e estava escuro. Os passos eram curtos porque o silêncio não deixava que o vento afastasse uma alma. Os passos eram curtos para ficarem cravados no chão daquela terra. Os passos eram curtos, porque a noite permitia a espera. E lá estava sem relógio e sem tempo.

O tempo devia sempre parar quando os passos se encurtam. Os relógios deviam dissolver-se sempre que o tic-tac deixa de se ouvir.

Parado, quieto, sossegado, de pé, com um sorriso enigmático e mais qualquer coisa.

Saber interpretá-lo era saber entender uma ave a chorar, era saber sentir a finitude dos momentos.

Alguém também sorria, para retribuir, e sentia-se pequeno naquele mundo colossal e complexo e sentia-se protegido e bem e tranquilo. Era a mistificação do oculto, era a mestria das horas, era o significado do belo… tudo unido numa só ramagem de árvores e num só caminho de pó.

O pó não devia cegar-nos.

Os braços enlaçaram-se como outrora e os sorrisos alienaram-se para sempre. Os passos continuaram pequenos, dois a dois, e o caminho permaneceu escuro e mágico pela noite.

Somos feitos de finito. Eles de infinito.


P.S. Uma vez alguém dizia qu eu escrevia em sépia. Um sonho.

 
posted by Catarina at 6/23/2009 06:24:00 PM | 0 comments
Sábado, Maio 23, 2009

Não percebe como sente, mas sabe que sente um rodopiar de anestesias bem no interior.

É um sentir inquietante, envolvente, imprevisível.

É uma onda de mar a escarpar as rochas e a levar areia do caminho.

Não se pergunta, porque tem-se medo da resposta e não se fala, porque não se sabe a melhor forma de sussurrar.

É um bálsamo quente e frio que deixa um rasto seco na garganta.

Intrinsecamente tudo é explorado e as mãos ainda que invisíveis percorrem aquele rosto como se uma cegueira enorme existisse.

Não se pede, porque as margens não se encurtam, mas ouve-se.

Ouve-se todo o olhar fundo e toda a dificuldade que há em olhar para não sentir, ouve-se o sorriso de uma criança que existiu, ouve-se uma música sempre que se lembra de uma noite e ouve-se um abraço quando se sente que valeu a pena.

Não percebe como sente, mas sabe que sente tudo de algumas maneiras.

Saber que sente é saber que há um vazio ainda por completar.

 
posted by Catarina at 5/23/2009 08:37:00 PM | 2 comments
Quinta-feira, Maio 14, 2009

O tempo é marcado pelas nossas duas vidas. Eu velho, tu criança. Levo-to como se me pertencesses e como se eu pertencesse a alguém. Talvez pertença ao caminho percorrido, que tu olhas com admiração ou talvez pertença às raízes das árvores que me acompanharam sempre. Tu pertences a ti mesmo, à simplicidade do teu olhar, à inocência das tuas palavras, à rebeldia dos teus actos. És uma criança que corre mais do que aquela bicicleta que eu usava para te ir buscar, mais até do que a corrente daquele rio que nascia bem perto da minha casa.
Hoje sinto-me a desequilibrar na bicicleta, as minhas pernas estão pesadas e estou sem forças para prolongar o teu ritmo de vida… Talvez pudéssemos trocar de papéis: tu conduzes-me e eu deixo-me conduzir. Mas, saberás o destino que tenho que tomar? Mesmo criança, saberás que é longínquo, mas também saberás que o assobio do vento, os suspiros da lua e os sorrisos do Sol te levarão sempre até mim. Basta sentires tudo isto enquanto pegas na minha bicicleta e me vês atrás de ti ou à tua frente. Sei, que haverá dias que serei eu a levar-te para casa e haverá outros que serás tu a levar-me para o céu.


A linha do teu olhar cruzar-se-á sempre com a minha naquela que é o fim da linha do nosso tempo. Eu velho, tu criança.
 
posted by Catarina at 5/14/2009 06:31:00 PM | 3 comments