domingo, julho 24, 2011

A árvore da vida


Esboços de um tal filme que estremece cá dentro e parte bocadinhos de cada ser pessoa… “A árvore da vida” ou "um ensaio da existência humana (des)protegida".

Muitas imagens. Muitos pensamentos. Muitos anos de história. Muitas marcas. Tudo veloz e estonteante. Do cosmos à vida terrena e à eterna.

Ela dançava com pés de lã e falava para dentro, para si. O ar era dócil e frágil. Gostava de voar e de sonhar e de amar. Sentia-se grata e com graça. A natureza era a sua mãe e o céu o seu pai. Também havia outro pai. Outrora músico e com sonhos. Agora mau. O bem e o mal corriam atrás um do outro. Onde um existia, o outro espreitava também para existir. Cabia ser feita uma escolha pessoal e, quem sabe, uma escolha universal.

A imagem de piedade dos dois dinaussauros, em que eu poderia ser um e tu outro e em que poderíamos trocar de lugar e ficaria tudo igual. A morte à porta e um adiar dela. Um meteorito a extingui-los e a música de uma nova vida a nascer numa terra perdida neste universo. Chuvas que corroem montanhas, vulcões que incendeiam a existência.

O perdão. O choro agudo de uma perda. Um irmão que magoa o outro, sem saber bem porquê. O choro agudo de um irmão que confia. O perdão outra vez. E a mãe queria tanto que eles fizessem o bem, que se amassem, que se deixassem levar pela água da vida e pela luz que teima brilhar todos os dias. A perda da inocência e a realidade a doer cada vez mais. Crescer, é preciso crescer tal como uma árvore e uma cobra.

Pulos de felicidade e liberdade. Um elevador que sobe para nos levar ao reencontro dos que amamos. Um lugar tranquilo que acolhe. Que tem vento que faz esvoaçar os cabelos e as mãos. Abraços demorados e lágrimas sentidas. Sorrisos, muitos. O perdão outra vez. A entrega de uma vida a um mar que leva consigo a areia de que somos feitos. O tanto que poderia ter dito e o tanto que não sabia até este fim. Um lugar onde o fim é o início. O início do amor. O início da paz. O início da reconstrução. O início do mal pelo bem. Ali… à nossa espera… um dia.


Com luz. Sem luz. As dúvidas permanecerão para sempre. Ainda assim, faço o meu caminho pelo meu bem, pelo teu bem, pelo bem de todos.

domingo, julho 17, 2011

um


Quis ser imprevisível e quis ser eu a fazer surpresa no primeiro momento. Acabei por sorrir muito de forma tímida com as palavras que lia e que contavam o tempo até aos meus passos se ouvirem. Depois, veio um envelope envolto em segredos que de alguma forma previam o futuro, como se as palavras pudessem ser adivinhas. Eram pequenos pedaços de mim e que te oferecia ali para guardares bem em ti. O vento começou a sentir-se em cada poro de pele e era preciso um pouco de calor. A lua nascia e sorria para nós como uma pintura no céu. Um céu azul com uma esfera brilhante onde se via o lado visível da lua com mares de imaginação. Ficou bem como foto. Estava frio outra vez e eu adivinhei o teu pensamento não por magia. Primeiro eram dois sofás, depois um. E é o número um que marca o início de criatividade, de conversas, de óculos pousados numa mesa, de mãos entrelaçadas, de toques de contiguidade e de beijos com pequenos sorrisos. Guardámos outra foto. A noite acabou com saudades e o dia trouxe pedido de histórias. Conta-me histórias, foi o pedido. Um dia iremos encontrar o tesouro que existe no fim de um arco-irís e iremos inventar uma nova constelação, com aquela forma e com aquele sorriso. E a finitude deste universo tenderia, aí e para sempre, para mais infinito.

Ss + oo.

domingo, julho 10, 2011

A história II


Um esboço do plano de outra parte da história…

Voltei a pensar na história. Desta vez detive-me nos pormenores do interior. Os elementos iniciais serão a água, a terra, o ar, as árvores, as flores, os veados, as borboletas, as pedras. Cada um com o seu significado. A água pelo frio e pelo corte da distância. A terra pelo chão que pisamos. O ar pelo bem-estar das caminhadas. As árvores por esconderem segredos. As flores por serem o perfume da história. Os veados pelo pretexto de os ver e sentir mais. As borboletas por voarem desejos. As pedras nos sapatos e no caminho.

Foram manhãs disto. Enquanto caminhava ouvia pássaros a cantar. Percebi que cantavam “River flows in you”. Era melodiosa e deliciosa esta música. Fazia-me sonhar o infinito e fazia-me agarrar o presente. Era um sorriso sem medo. Era uma protecção sem igual. As palavras eram ocultas e os pensamentos claros. As vozes sussurravam pequenos silêncios. Havia risos, muitos risos. Advinha-se algum tipo de vínculo. Percebi, mais tarde, que seria um livro com quatro histórias em quatros tempos diferentes e com quatro formas de sonhar e de mar. A par disso, o vento batia-me com leveza na cara e eu fechava os olhos e pensava que tudo aquilo ia ser para sempre.

quarta-feira, julho 06, 2011

A história


Prometi que hoje ia escrever. Ia começar a contar uma história, que desde há dois anos a quero escrever. Uma história pequenina e grande, com sentidos e significado, com palavras e silêncios, com ternuras e distâncias. Já sei como será o início e o fim. O início será o normal e o fim o anormal. As antíteses numa história são sempre importantes: têm mais graça e dão sempre o toque de dor que se espera viver, ainda que inconscientemente. Não decidi ainda onde escrever. Pensei num caderno e numa caneta, mas é provável que as lágrimas me soltem do olhar e me façam cega na história. E eu não posso ficar cega, tenho que saber contornar todos os pormenores para não perder o equilíbrio. É certo que haverá momentos em que terei uma venda nos olhos para redescobrir sabores e essências e perceber pelo toque quais são as sensações sentidas. Com os olhos fechados sente-se de outra forma. Depois a venda desaparecerá e transcreverei por palavras tudo, ou quase tudo. Parecerá real a história e será aí que ela se tornará grande. O fim acabará com “era uma vez duas pombas brancas que naquele telhado perceberam que tinham caminhos distintos a percorrer. Já estava escrito. Voaram e eu perdi-as do olhar. Era manhã muito cedo e ia ser um dia longo com duas metades. Iria voltar para casa mais vazia e iria saber sempre sorrir às estrelas e a noite seria sempre sinónimo de inspiração.”

Na verdade, contei a história no meu pensamento. Sei-a de cor. Qualquer dia escrevo-a e leio-o em voz alta, prometo. A quem? A mim.

domingo, junho 05, 2011

Acasos

Não há coincidências. Há acasos. Aprazíveis, amigos, com algum “t” de “tinha que ser”. Foi assim num ontem, foi assim num hoje.

Num ontem, escrevemos umas palavras a alguém que nos é muito querido, partilhámos sonhos e deixamo-nos desfrutar do vento que corria do horizonte do Mondego. Nenhuma de nós sabia que íamos estar ali, mas aconteceu. E a tarde terminou com a “Cor da Esperança” e com o alento de quem nem o céu é o limite. Ficou gravado nesse dia que há histórias que marcam os dias e há dias que nos marcam.

Num hoje foi diferente. Alguém me agradeceu por eu ter impresso sentimentos em palavras, que explicavam tão bem o seu estado de ser naquele momento. Era um texto antigo, já com pó. Lembrava-me das palavras, do rasto seco da garganta, das anestesias do interior e de todas as imagens que me levaram a escrevê-lo. Mas, não me lembrava quem me levou ao fim dessas palavras. Há de facto um sorriso de criança, uma música e um abraço, mas que apenas fazem sentido aglomerado agora.

Acredito que escrevi esse texto para eu o ler agora, para também eu me rever em cada palavra, em cada ponto final, em cada entrelinha. Hoje, ele está à medida do que eu sinto… sem tirar nem pôr. Está à medida do vazio. Daquele vazio.

Obrigada, amigas, por estes acasos.


P.S.http://www.youtube.com/watch?v=2Hay0xlAEwI&feature=related :)

quarta-feira, maio 04, 2011

Intervalo


Os livros continuam numa pilha enorme à espera de tranquilidade para os ler. As palavras continuam na cabeça a uma velocidade atroz, que tonteia todos os pensamentos quotidianos. Ultimamente, tem sido assim. Encontro-me estonteada, com mil palavras para dizer, mas com falta de apetite para dizê-las. É tempo de silêncio. E de ecos. Gosto de escrever nos intervalos dos silêncios e dos ecos: viro-me para lá e grito, oiço-me, não oiço nada, escrevo até ouvir o silêncio a perturbar-me, volto a gritar, volto a ouvir o meu eco, escrevo mais palavras até o silêncio voltar a mim. Gosto disto, faz-me variar os pensamentos, como se fossem razões esquemáticas de uma vida com tanto significado. As palavras são a minha voz, mesmo que escritas. Por vezes roucas, por vezes tímidas, por vezes luminosas, por vezes caprichosas, por vezes tristes, por vezes amorosas, por vezes tu, mas sempre eu. Sempre, sempre, eu. Por mais que finja e que me debata com o que me envolve, transpareço sempre o intervalo que existe entre um eco e um silêncio. Eu percebo-o bem. Estou habituada a estudar intervalos mais infinitos que este. Por isso, não é difícil. Só o é se a sensibilidade estiver adormecida. Quem não sabe de mim, não o sabe. E quem sabe de mim, talvez o saiba. Assim, eu acredito.

P.S. *Entre ecos e silêncios saiu este texto.

sexta-feira, abril 08, 2011

Inútil

Devias ter uns cinquenta anos e estavas ali: inútil, sujo, perdido. Andavas de um lado para o outro; não percebi à procura de quê. Pensei num cigarro, numa sandes ou num simples diálogo. Perguntava-me se saberias falar. Perguntava-me se saberias escrever. Perguntava-me se saberias pensar. Perguntas, obviamente, estúpidas.

Pousaste as tuas coisas, presas por cordéis, no chão daquela praça. Tinhas pouca coisa: um garrafão vazio e ma espécie de mala de documentos, onde presumo que trazias alguma roupa. Sentaste-te e trocaste de sapatilhas. Trazias umas all-star sem meias, e estava calor, muito calor. Bebias água de uma garrafa de litro e meio e a tua camisa estava semi-aberta e eras magro. Voltaste a andar de um lado para o outro. Talvez para seres visto, para saberem que existias. Custava-me olhar para ti e ao mesmo tempo não conseguia desviar o olhar. O teu era triste, magoado, sem rumo.

Gostava de saber da tua história, mas esta sociedade não permite, estes “pré-conceitos” não permitem. Olhava à minha volta e ninguém se apercebia de ti, ignoravam-te como se fosses uma pedra: amorfo a tudo. E estava ali tanta gente a conversar como se o mundo fosse apenas aquele pedaço de tempo ao redor de umbigos bem limpinhos.

Comecei a pensar no que aconteceria se te sentasses numa daquelas mesas da esplanada… O empregado, certamente, que te iria espantar, porque tu irias espantar clientes… O empregado, certamente, que te iria querer matar, mas lembrar-se-ia que isso era crime. Acabarias por te ir embora e cada vez mais triste por ninguém te querer bem.

Não contei quantas voltas deste de um lado para outro. Mas, cada vez que te chegavas para o lado direito, eu tinha medo. Medo do desconhecido.

Ninguém te ligou nenhuma. E acabaste por ir embora.

E se tinhas fome? E se tinhas saudades? E se tinhas solidão? Ninguém quis saber… e eu também não.

Desculpa-me também a mim. Desculpa-me a cobardia.

P.S. *O primeiro espaço sugerido para tomar o café foi aquele (o espaço PR). Mas, antes de nos sentarmos naquela esplanada, percorremos dois cafés onde não havia lugar para nós. Disse na brincadeira que estava escrito que teríamos que ir para a esplanada do espaço PR, porque iria acontecer alguma coisa. Não sei se acaso ou não. A verdade é que me marcou este vaguear vagabundo. Fez-me pensar o quão é triste esta nossa sociedade e o quão é triste o egoísmo que vivemos e o quão é triste a falta de amor para com os outros e para connosco próprios.

segunda-feira, março 07, 2011

O Campo


Ver-se a si próprio é dor, mais do que a do amor.

Partem-se todos os espelhos para se deixar de ver. Arranca-se de dentro tudo o que corrói. Dói. Mas como qualquer dor difícil, também esta se perde. E então, teremos coragem de voltar a olhar olhos nos olhos o nosso interior. Sem mágoa e com a nudez própria de uma recomposição. Livres, outra vez, e músicas e silêncio presentes.

Há sempre um campo a voltar, um laço a perdurar. Por mais tempo que o relógio conte, o tempo pára quando a pilha enfraquece, mas nem sempre se consegue ouvir este silêncio.


P.S. *Hoje o silêncio é este: http://www.youtube.com/watch?v=PYhG8DAFf1c&feature=related

sábado, fevereiro 19, 2011

Por onde? Para onde?


Tudo leva tempo de recordar.

Meia dúzia de palavras e é para sempre.

Postais por escrever.

Imagens ainda não vividas.

Fica tudo guardado à espera de bilhetes de aviões, barcos, comboios, bicicletas, pés.

Um dia, sim, um dia, vou passar por onde tantos já visitaram.


P.S. *Para onde é o caminho?

terça-feira, fevereiro 15, 2011

You exceed

Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.Antoine de Saint-Exupéry


E hoje não tenho mais palavras que mostrem como me sinto. Apenas sei que hoje choveu e que a chuva é a música. Sempre sonante e de sorriso verdadeiro, recordar-te-ei. You exceed!


sábado, janeiro 29, 2011

Causalidade


Hoje há assim esta pequenina longitude entre nós. Sabes, por acaso, a quantas horas de pensamento estamos distantes? As mesmas que existem numa imortalização de braços abertos, numa penumbra que tende para infinito. São, na verdade, uma inequação demasiado complexa que tenho andado a tentar resolver. Cálculos, mais cálculos e horas de vida passadas a olhar para incógnitas, como se elas pudessem ganhar vida ou cor com o meu olhar. Há sempre uma relação de causalidade entre as variáveis. Talvez entre “x” e o “y” seja mútua. Ainda não consegui chegar à demonstração de resultados. Reformulo a inequação e continuo a tentar. Vou-me cansar deste problema e vou guardá-lo no caderno dos “problemas ainda por resolver”. Vou dormir e sonhar com a resolução. Se ela existir e não for imaginária, acordarei de noite num ímpeto alegre e chegarei à conclusão que o resultado não é um número, mas uma palavra.


P.S. Porque há sempre tantas letras no meio de tantos números... e eu gosto destas matemáticas.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Numa folha branca


É a partir daqui que escrevo. Tantas palavras. E olho. Tão dentro.

Não ando em compasso de espera, espero-me apenas a mim. Conduzo-me por esta casa silenciosamente e vou à procura de histórias. Há muitos livros nesta casa. Mas não encontro o que me pertence. Talvez as histórias tenham fugido dos livros com medo de serem encontradas e lidas e sofridas e amadas. Há algo que me atrai mais longe, pequenas notas musicais desenhadas em partituras minimalistas. Estão a lápis. Adivinho um rascunho. Continuo a observar e atrás de mim está um piano e uma guitarra. Interrompo o silêncio com um breve verbo e há acústica. Faltam as vozes.

É a partir daqui que escrevo. Destas folhas brancas que encontrei neste chão. Umas estão brancas, outras escritas por mim, outras brancas e escritas por alguém. Há histórias nestas folhas e ainda que eu não as veja, sei que cá estão.

Numa folha branca há sempre mais do que se imagina. Talvez as vozes ajudem, talvez…

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Voltem mais tarde


Como disse, é um monólogo. Não por me faltar alguém para o diálogo.

Esta revolta interior surgiu há muito. Tem dias que está adormecida, outros acordada. Ela vem de eu sentir que não pertenço a este mundo, por todas as mágoas que ele tem. Não sou perfeita e tenho noção que também eu provoco mágoa ou dor, por vezes. Mas a questão está para além do “eu”.

Começa tudo por um processo engraçado: a junção de dois gâmetas numa probabilidade que demoraria mais de mil anos a contá-la. Sem nos apercebermos temos uma família, uma escola, uns amigos, uns professores, uns desconhecidos, uns livros, umas músicas e tantas outras coisas que condicionam quem somos. Não nascemos livres, é certo!

Imagino-me num fado diferente: poderia ter sido bailarina e integrar o mais belo “Lago dos Cisnes” ou poderia simplesmente não ser “nada”: nascer desterrada e ser ignorante. Nunca ninguém é “nada”! E ser ignorante pode ser uma bênção.

Vivemos como se fossemos imortais. Adiamos sempre tudo, porque achamos que temos sempre tempo de recuperar e de viver. Perdemos pessoas, sem perceber bem, ficamos calados quando deveríamos dar, por exemplo, “Parabéns”, sorrimos por hipocrisia. Tantos e tantos exemplos mais…

Irei elaborar uma hipótese com argumentos. Mas, sinceramente, não sei se conseguirei demonstrar o que queria demonstrar. Tenho medo de não ser capaz de desenhar um quadrado pequeno com o interior preto, no fim.

...

As cortinas fecham. Não há plateia. É apenas um ensaio. Voltem mais tarde


P.S. *Neste Natal, que se celebra “2010” anos do nascimento de Cristo, quero que a luz que tanto se vê por aí (mas tens outra bem maior escondida dentro de ti) nos faça viver como mortais: com a certeza que temos que viver felizes... porque um dia a felicidade pode tardar.

E a felicidade tem diversas formas!

domingo, outubro 31, 2010

Parede de vidro


Só uma parede de vidro nos separa.

Vejo-te a cair devagar, com força, devagar outra vez. Levantas-te e evaporas. Fazes barulho e fazes-me pensar e lembrar o que já foste: simples vento a rodopiar em folhas de palmeiras altas. Adormeces-me a sussurrar “Era uma vez...”. Nunca oiço as histórias até ao fim; sei apenas: se a história tiver um final cinzento, o dia será cinzento; se a história tiver um final branco, o dia será de luz. Às vezes acordas-me com pequenos plins. Às vezes, assustas-me e tenho medo; escondo-me em mil mantas e rezo para que te vás embora rápido. Outras, contemplo-te e saboreio-te; olho para ti olhos nos olhos e sinto que fazes parte desta Natureza-Mãe e que és vida.

Só uma parede de vidro nos separa.

Serás grande e partirás este vidro, invadirás todo o espaço e eu boiarei nesse mar. Poderei sentir-te na pele. Irás desfazer-te assim que te tocar com as minhas mãos, mas sei que és real, mesmo sendo transparente. Sonatas de chuva tocarás para sempre e eu irei sorrir e bailar com a tua música.

Gosto de chuva, mas não gosto de paredes de vidro.

sexta-feira, outubro 15, 2010


Céu: azul de mim a volupiar por todos os cantos de significado.

E eu a saber: sim, tem que ser, vai ser.

E eu a pensar: Espera mais um pouco, está quase. Não vês este azul? É o meu azul, é aquela parte de mim.


Rio: azul de mim a refrescar o que me queima.

E eu a saber: este ardor a acabar por sentir mais.. mais perto.

E eu a pensar: É hora de ir. Para aquele longe para trazer a serenidade.


Azul: azul de mim a segredar o comum entre dois.

E eu a saber: 1+1=infinito

E eu a pensar: Percebes? Os factores aleaórios têm média nula. Sem medo, por isso!


P.S.*Quando temos o azul nas mãos o que lhe devemos fazer?

sexta-feira, outubro 08, 2010

Palavras feias


Desculpem. Hoje apetece-me dizer palavras feias. Daquelas que são trapos velhos sem cor. Daquelas que perdem qualquer sentido depois de ouvidas. Daquelas que não se tocam e que não ficam bem numa menina. Daquelas que nos engolem os pensamentos e que nos fazem libertar da pressão. Daquelas que são um escape instantâneo. Daquelas que fazem dar um murro na mesa e apetecer dar mais... mesmo doendo.

Porque tudo faz parte de um imenso desejo de ser tudo e de ser tão limitada a este tudo. Primeiro com o tempo, depois com a minha ansiedade, depois com os acasos, depois com as circunstâncias burocráticas da vida.

Já chega, não? Porquê?

Um pouco mais de céu, talvez!

quinta-feira, setembro 09, 2010

Mestres


Um simples toque de mãos e percebe-se a dureza de uma infância, de uma vida. Com vergonha pela diferença de texturas havia crianças que não me queriam dar a mão. Notei pelo toque que a palma das meninas e dos meninos tinha pequenos calos junto ao início de cada dedo.

E eu a pensar: E as minhas mãos de princesinha quando era criança, quando brincava com bonecas e pensava que o mundo era as histórias perfeitas que inventava: Não havia famílias com sete filhos e com fome, não havia ninguém doente que não tivesse cura, os pais educavam e bem-tratavam os seus bens mais que preciosos, os brinquedos eram como os meus e havia muitos para variarem as brincadeiras, os sonhos Do Que Queres Ser Quando Fores Grande eram sempre possíveis e fáceis.

E eu a acordar: a utopia da igualdade e a utopia de eu ser capaz de mudar o mundo inteiro.

E eu a aprender: se eu deixar pequenas marcas que sejam e que mudem algo em alguém para melhor, esse alguém irá mudar algo em alguém para melhor e num longo-prazo todos seremos pessoas melhores e o nosso mundo, consequentemente, também será melhor.

E eu a questionar: e se alguém quebra este ciclo do bem? Alguém responde: quando algo quebra, há sempre alguém que segura e multiplica o bem. E eu acredito!

Com todos os motivos para não sorrir e não ser feliz, estas crianças com calos nos dedos ensinaram-me a retribuir cada sorriso com um sorriso mais rasgado e um abraço mais apertado. Elas não vivem de futilidades; elas são Mestres que nos dão grandes lições de vida. O essencial está em cada um de nós e só se vê com o coração.

Sentir o tacto é sentir o importante.


P.S. *Os meninos da foto eram estes Mestres. Como brinquedos tinham estas motos de esferovite.

segunda-feira, julho 26, 2010

Até já :)

Saudades: Família. Amigos. Casa.
Perto. Sempre.
Com Amor.

Volto mais tarde.

Até já :)
Catita

P.S. *"A vida não vai parar,
vai como o vento,
tens tudo a dar
não percas tempo.
Podes saber
que vais chegar
onde Deus te levar".

sexta-feira, junho 18, 2010

José Saramago, a criança que adormeceu numa flor


A professora lia com os olhos arregalados de prazer aquela Maior Flor do Mundo. Nós ouvíamos, ainda tão crianças, sem perceber bem. O tempo foi passando e um outro professor lia com uma voz altiva e teatral as falas dos dois seres do Conto da tal Ilha Desconhecida. Pedir um barco ao rei, como um pequeno obséquio, limpar barco bem limpo e rumar, eles sabiam bem, até à ilha desconhecida. Eu ouvia e já começava a perceber. Outra professora, também com os olhos grandes e expressivos, lia com uma vontade enorme de também voar numa Passarola com uma tal Blimunda e um tal Baltasar. Eu lia e deliciava-me no sonho, nos olhos daquela Lua que tudo via em jejum, que escondia todas as noites um pedacinho de pão debaixo da almofada para não ver por dentro Baltasar: um prova de amor, um acto de heroísmo que é consumado quando ela recolhe a alma de Baltasar julgado em praça pública. Neste tempo, já eu percebia o que o mestre escritor queria dizer ao leitor.

Hoje, José Saramago voou na passarola que quis construir e mais de duas mil almas colhidas dentro de frasquinhos voaram com ele. Ele continuará a viagem e será o velejador daquele barco voador. Ouve-se uma sonata de Scarlatti e tudo sorri.


P.S. *Porque hoje um dos Maiores Escritores Portugueses partiu. Porque em miúda ele entrou no meu cantinho da literatura e ganhou grande estima minha. José Saramago, a criança que adormeceu numa flor.

sexta-feira, junho 04, 2010

magnólia de neve


E um dia voltou a nevar. Assim do nada. Aqueles flocos eram um gelado a deslizar pela garganta e a limpar a transpiração do calor. Os tons foram todos eles pintados pela cor branca. A praia foi preenchida por um imenso manto branco e todas as águas desceram graus Célsius. Os ramos das árvores brotaram flores brancas de cristais de neve e pareciam algodão a flutuar no alto. Todos os animais se esconderam em esconderijos improvisados e hibernaram, mesmo os que nunca o tinham feito, encostados uns aos outros. A meteorologia não conseguia prever o término desta alteração repentina. E Os Homens espreitavam à janela para ver quando a neve atenuava, na esperança que ela caísse cada vez mais. Já há muitos anos que não caia neve e eles queriam aprender e ensinar a saborear toda a magia que um floco de neve pode ter. Muitos já se tinham esquecido que a neve já foi um simples suspiro de um amante, uma simples gota numa folha de uma magnólia, um pedaço de iceberg na Antárctida. Muitos lembraram-se que… Um floco de neve pode conter uma história milenar. Um floco de neve pode conhecer-nos vistos do céu. Um floco de neve pode ser um pedaço branco da mente de cada um. Um floco de neve pode saber os nossos segredos. Ainda assim, eles não ficaram com medo, porque os flocos não tinham boca para contar e os olhos, esses, estavam cansados para serem expressivos. Dormiram, por isso, descansados.