sexta-feira, fevereiro 28, 2014

À avó

Os tempos já não eram fáceis. O cérebro há muito que se comprometia com o presente e o futuro já nem existia. Vivia, porque tinha que esperar pela hora. Aquela hora marcada num dia de chuva.

Sei que gostava de mim, mesmo que nestes últimos anos já não soubesse com toda a certeza o que eram sentimentos. Eu também gostava dela à minha maneira. Pelos doces de criança, pelas faces rosadas iguais às minhas, pelo feitio também tão idêntico. Era querida e alegre.

Lembro-me de lhe dar catequese ao sábado. Lembro-me de ela adormecer a rezar o terço. Lembro-me de ela comer às escondidas. Lembro-me de ela desejar a outra vida algumas vezes. Lembro-me do cantor favorito dela. Nas últimas conversas perguntei-lhe se ela sabia quem era Deus e se ele existia. Disse-me que sim às duas.

Hoje foi o final da vida dela. Aquele final que não se aprende na escola, nem em nenhum dos contos que lemos por lá. Hoje enquanto ouvia o Padre, achei que não fará mal acreditar no que ele disse. Acreditar que a vida é uma poesia e que neste fim começamos uma nova vida. Deixamos de viver numa tenda frágil e passamos para uma casa segura.
Hoje acredito nisto. E acredito que Ele te acolhe por sempre acreditares. A fé é isto mesmo.

Desculpa a distância em tudo. Quando crescemos ficamos assim. Parvos e egoístas.

Aí do céu, lê poesia para mim e reza por nós e por um mundo feito de Homens de coração.

Eu vou continuar a minha corrida de miúda à procura de um caminho feliz.

domingo, janeiro 26, 2014

A diferente chuva

O meu cabelo ficará molhado. Não do banho, mas da chuva de ideias que lá fora espreita para cair.

Hoje não é só mais um dia. Hoje há poesia lá fora. As luzes das aldeias abrem-se por entre os cortinados transparentes.

Ninguém adivinha que hoje a chuva será diferente. Enrolo-me nas mantas deste inverno frio e espero pelo sinal. Deambulo nos meus sonhos e na exigência que tenho para mim. Sou alheia ao enredo e faço a minha própria história.

A estrela bateu-me à janela. Saio com pés de lã e deito-me na relva verde à espera que esta chuva caia. O meu cabelo brilha, os meus olhos transformam-se em luz e o meu coração fica enorme.

Vejo o ano passado correr-me nas veias, com todas as coisas boas que me aconteceram, com todo o crescimento que tive. Sou mais, tive mais, aprendi mais, dei mais. Foi um ano de realizações. Os concertos, as viagens, os teatros, as fotografias, os olhares, os toques, as partilhas, os sabores, as essências, os trabalhos. Por fim, a pequena S. que terá um lugar diferente e novo neste caminho.

Sinto que alguém se deita ao meu lado, ainda que invisivelmente. Diz-me para continuar com a mochila às costas e com os sonhos que crescem. Diz-me que terei companhia e que o caminho nunca será egoísta. Diz-me para escrever e não ter medo que os outros leiam a minha alma. Desaparece de mansinho e eu volto à janela. A estrela diz-me adeus e até breve.


Acredito que seja alguém sábio e eu gosto de sabedoria.

sábado, novembro 02, 2013

Postal de Florença

Florença é para ser vista do alto. De cada lado da ponte vecchio. A torre do palácio, a cúpula da enorme catedral, por um lado, os jardins do outro palácio e o miradouro, por outro. Sentimo-nos pequenos e sonhadores ao mesmo tempo. Florença é “pequenina”. As gôndolas são aqui substituídas por coches nas ruas. Havia pintores pelas ruas como outrora, barulho nocturno de sexta-feira, “bairro alto” lá do sítio e teatro de rua. A música do rádio do artista chamava as pessoas. Aos poucos a roda compunha-se de culturas. O artista gostava delas. Chamou um americano gorducho e uma sul-coreana magrinha e de minissaia. Hum… apimentava-se brincadeira e gargalhadas. O melhor foi as crianças. Primeiro a menina sem medo e que ficou com medo por ele lhe ter tirado os óculos. Segundo, o menino com medo e que ficou sem medo. Foi este que ele escolheu. Ensinou-o a benzer à frente de todos. A fé anda nas ruas.

David.  É um dos sinónimos de Florença. A estátua é enorme e olhar para ela, andar ao redor dela, pensar que foi esculpida por Miguel Ângelo, faz-nos sentir outra vez pequenos e sonhadores. David ganhou Golias e esta história do antigo testamento eterniza a força da inteligência e da coragem à brutalidade de alguns seres.

Mais arte, daquela que sempre vi em fotos e que um dia seria vista pelos meus olhos. Vénus. A Vénus de Botticelli. Para mim o nascimento da espiritualidade feminina, na nudez que é o amor.


Voltar a recordar Florença é lembrar-me do sino. Do sino que nos deu as boas vindas com um Sol ainda reluzente. Voltar a recordar Florença é lembrar-me do canto e do violino. Do canto e do violino que nos deram as boas idas com um Sol ainda reluzente. 

Fica para sempre.


sexta-feira, outubro 18, 2013

Amar é isto.

Somos feitos para ser com os outros. Não sozinhos. Acompanhados com. Querer conhecer os outros um pouco mais. Querer partilhar um pouco mais do que somos. Na verdade. Sem máscaras.

Nunca nos conhecemos na plenitude. “Viajar” ajuda. Quando se faz um percurso do que já passou, das “sortes e dos azares”… enfim, da vida que nos faz ser.

Amar é isto. É querer ir. Ir sem saber o que se vai encontrar escondido no recôndito de uma alma humana, como a nossa. Com tanta fragilidade, com tanto medo, com tantos sentidos. Ir com a certeza de que é bom partilhar, mesmo que doa e que essa seja a “dor do coração”. Poucos há os que a sentem. Ou porque não querem que se vá a fundo no descobrimento dos pedaços ou porque simplesmente ainda não foi a hora.

Os primeiros são os que preferem a ausência de luz. Ficar ali pela vista de lustro de fora. Dá trabalho, é exigente ir ao cerne, ao nosso, ao meu, ao teu.

Só há almas escuras se não te predispuseres a acreditar que podes ser uma luz. Cada vez que há um raio, conhecemo-nos melhor. Às vezes fica claro demais e a nossa verdade confunde-se com ódio. Parece mais fácil ficar na escuridão. Mas, sabes, no fundo temos tanto, tanto e somos tanto, tanto, que guardar isto apenas para nós é um egoísmo ricardiano.


Amar é isto. É querer ser luz e é gostar de ser claro. 

P.S. "Yeah we still got time"... http://www.youtube.com/watch?v=WWJfsGoc6fw 

sábado, outubro 05, 2013

Postal de Veneza

O primeiro momento ter sido à noite trouxe um outro sentimento à cidade. As luzes e o pouco barulho nas águas adivinhavam um amor crescente ao labirinto que iria percorrer. Não é fácil saber onde se está se não houvessem placas com os nomes das ruas ou das praças. Perder-se naquelas ruas é encontrar em cada recanto umas flores penduradas nas janelas e uma gôndola enamorada nos mares. Veneza cheirava bem. Cheirava a perfumes caros. Além das fotografias queria ter fotografado cada uma destas essências. Veneza tinha muita luz e dava para ver os Alpes. Eu reluzia com ela, no meu jeito envergonhado e com a minha sede de ser cidadã do mundo. Os palácios e a cultura faziam-me sorrir alto com os exemplos de cuba, com a contemporaneidade da arte. O nosso português entranhado naquelas ruas, pela fala e pelo fado. Lá também se estuda a nossa língua. Que bom encontrar acasos que nos fazem sonhar como a Alice no país das Maravilhas. As quatro estações na acústica perfeita de uma igreja. Deus também gostou de ouvir, tenho a certeza. A praça com a multidão, o vento na cara enquanto se navega até outras ilhas. A chuva forte da noite. A despedida na ponte que atravessa o Grande Canal e que os meus pés subiram e desceram não sei precisar as vezes. Foi bom deixar-me estar a saborear o pôr-do-sol ao som da água que embala sonhos. É para voltar e ver a aqua alta.


segunda-feira, julho 29, 2013

Era assim que queria ir

Era assim que queria ir. Com uma mochila às costas e ir. Não ter medo do tempo e ser contemporânea em todos os momentos. Caminhar, caminhar, caminhar. Até sentir que estás lá também. No caminho. Não à minha espera, mas à tua.

É um dos meus sonhos. Percorrer toda aquela muralha e encontrar-te no meio, por acaso, no acaso dos deuses. Fechar os olhos e ter a certeza que sim, que o vento me leva ao leme.

Serei eu a mulher do leme, que frágil faz dos braços fortes a força de não desistir. Navegar, navegar, navegar. Até sentir que o mar alto é calmo quando me lembro do sonho que está por viver.

É um dos meus sonhos. Parar a cada tempo, enroscar-me no cachecol e escrever cada página daquele caderno com a letra leve do céu. São palavras bonitas, acredita. E se, realmente, te encontrar por lá, deixo-te ler o que escrevi e leio-te em voz alta cada palavra que trago aqui, comigo, à minha espera.


É a hora. Já parti. A mochila vai com o essencial do Exupéry. Se não nos virmos por lá, os deuses não existem e prossigo sozinha o sonho que há-de vir. 

domingo, junho 02, 2013

Comprometimento

“Hás-de amar, quer queiras quer não. As emoções vão e vêm como as nuvens. O amor não é apenas um sentimento. O amor demonstra-se. Amar é correr o risco de falhar, o risco da traição. Temes que o teu amor tenha morrido. Talvez esteja à espera para se transformar em algo superior. Acordem a presença divina, adormecida em cada homem, em cada mulher. Conheçam-se um ao outro nesse amor que nunca muda.”

Há dias em que o pensamento trai as palavras que saem da boca. No meu caso por ingenuidade e por sonho.

O título vagueava pelos meus sentidos no sentido de esperar um ar fresco que entrasse pelo meu olhar adentro e se deixasse ficar aí.

Começou sem silêncio, com a luz, com as folhas, com a água e com o vento. O vento sempre presente. O vento, que para mim, é significado daquele ar fresco, de correr o mundo à procura da essência do cerne de cada um.

A corrida pelo mundo nota-se pelos constantes movimentos da câmara que perseguem cada história, cada corpo, cada alma. Faz de propósito e não deixa que o olhar pare, faz dele o maior atleta. Olhar e encontrar sem tentar qualquer descanso merecido.

Pode-se dançar enquanto se corre aquele mundo. E aquela dança é um sonho de liberdade. Uma liberdade condicionada às falsas presunções de que aquilo é que é ser feliz.

Não o é. Nota-se pela dor que se instala silenciosamente sem que outra das partes perceba ou queira perceber que não há felicidade assim. O castelo cinzento do início prenunciava a morte lenta dos sonhos e a cidade do amor ridiculamente prenunciava que um cadeado não é eterno.

Eu digo não. Não quero amarras, nem muros na procura. Quero apenas comprometimento. Um comprometimento que me saiu assim [naquela pequena traição do que me ia na alma às palavras que disse]:

Um bilhete para o “Grande Amor”, por favor.


sábado, abril 20, 2013

Figura de estilo



Hipálage. Um pensativo cigarro.

Assim era aquele olhar. Um olhar pensativo, como o de um cigarro fumado de pé, com a nudez própria dos pensamentos.

Podia fechar os olhos e via tudo da mesma forma. As cores frias do quadro. As cores quentes daquela vida. Uma diluição de ar pelo corpo inteiro à espera do nada. Do nada vindo da janela. Da luz da janela.

Porque a luz era precisa nos olhos, para os queimar, cegar até ao ponto de tatear todas as paredes à procura de cicatrizes.

Nada se encontraria. Apenas música. Música tatuada na pele quase infantil. Música de chuva, e de escuro. Como se só o som significasse uma inundação.

A chuva é precisa. Para regar os jardins que estão lá fora, depois daquela janela. Para dar mais cor à terra que se vê na linha do horizonte com os olhos fechados.

Era esta a figura de estilo. Ir pisar um chão de terra logo após a janela.



Obrigada Hopper, pelo quadro, pela inspiração.

P.S. Fica a música do quadro: http://www.youtube.com/watch?v=9znJMAqOpA0

sexta-feira, março 29, 2013

À janela


(foto de minha autoria)

Falem-me das coordenadas que tatuaram.

As minhas são à janela. À janela do meu quarto, aquela onde me sento no parapeito a olhar para duas borboletas brancas, para uma serra verde, para três céus, um de chuva, um de sol e outro cor-de-rosa. Por aqueles vidros vejo tudo, sonho tudo. As histórias são todas perfeitas. Gostar é suficiente. O mundo é inocente.

Volta e meia, abro a janela. Sinto o vento levante que se chama à razão de ser. É o de levante, como a música da orquestra que oiço. Que me diz que não vale a pena perdurar com a janela aberta. O melhor é olhar cada vez mais distante através dela.

Há dias em que faço esse exercício: olho o mais longe que consigo. Há vezes em que vejo cavalos a descer pela encosta com alguém a me acenar. Eu sorrio e fico assim, à espera do desaparecimento da imagem, para voltar a sonhar. Na verdade, o cavalo nunca chega, porque volta para trás. Chega-me um pequeno passarinho à minha mão. Traz-me um bilhete. São as palavras que escrevo no meu coração. De onde ele as descobriu?

Há dias em que faço outro exercício: olho o mais perto que consigo. Vejo o reflexo dos meus olhos naquele vidro. Ficam lá gravados e à noite quando paro de olhar, e vou dormir, há um mocho copista que lê tudo o que os meus olhos dizem. Escreve os meus textos, como se eu lhos tivesse a ditar, naqueles bilhetes. Depois distribui àquele pequeno voador para me deixar inspirada com o meu próprio ser.

Então, é assim. É através da janela que para mim acontece, não sou eu quem planeio. Mas, sou eu quem decide a cor do céu.

E vejo tanta vida dentro de mim. 

sábado, janeiro 26, 2013

Dos livros inacabados


Gosto do que fica inacabado. Dos livros que deixo a meio e que teimo um dia voltar a eles. Teimo ter um tempo “pretérito de futuro” para cada um deles. Para me relançar nas palavras que têm para mim. Teimo em acreditar que me lembrarei de pormenores das páginas já lidas e que as deixei com um marcador à espera que eu não me esqueça.

E eu não me esqueço dos livros que deixei por ler. E sei ainda muitas coisas de cor. A verdade é que há livros que não são começados a ler no momento certo.

(Não sei qual é este momento também. Talvez seja um ponto de tangência entre qualquer fronteira eficiente que descreva o que cada um de nós é e vai viver.)

E, por isso têm, que ser deixados a meio. Naquela página, com aquele número, com aquela última palavra, com uma vírgula, com reticências, com um ponto de interrogação ou mesmo com um ponto final.

Nesta inevitabilidade da memória, voltei a pegar em dois livros em particular. Cheguei à última página lida e lá estava o mesmo ponto em cada um deles. É esta condição de finitude que tenho que aceitar, mesmo gostando do que é inacabado, do infinito.

Espero perceber e sentir o que me leva a ler um livro até ao fim, num sentido de futuro. Talvez a aleatoriedade não aleatória desta existência seja fator explicativo.

P.S. Para começar... 

sábado, dezembro 29, 2012

Cor-a-gem


Voltei a um dos meus medos: saltar ao trampolim.
Cor-a-gem.

1. Cor
Comecei num ritmo lento, pé ante pé. Consegui já o primeiro pedaço da palavra nesta corrida até ao salto. Ganhei-a por mérito, como sempre. Com o esforço das horas dadas ao que me parece ser a altura de as dar. Com os tempos que não foram os certos. Com as vidas que são renasceres de sonhos camuflados em nós.

2. A
O ar que preciso de respirar no voo inspirado que vejo mesmo à minha frente e que mesmo esticando todos os músculos ainda não o toco. Ainda vejo as minhas mãos vazias de pó. O puro ar vem depois. Arrepio. Dou o impulso. Fecho os olhos. Salto.

3. Gem
Subo até ao céu. Com os braços abertos, sou um pássaro do sonho. Vejo a gaiola cair e a partir-se em pedaços infinitesimais. Não os consigo contar, porque são desprezíveis. Percebo que estava presa ao nada. Ao nada que julgamos ser tanto antes de começar a corrida. Ao nada que parece mil tantos quando a razão dilacera tudo o que temos cá dentro.

4  a +oo. Subida exponencial
Amanhã continuarei o último estágio deste caminho. A subida exponencial. E quando for amanhã, tenho a certeza que serei o sentir. E não terei mais medo destes impulsos dos sonhos que se irão cumprir.
Para que não se falte cumprir o meu “Eu”, que tal como cor-a-gem tem a sua raiz no coração. E Coração significa dar cor à ação. Ou ainda tudo o que se fizer, que se faça num sentir aberto de coração.

Que os anos futuros sejam feitos de cor-a-gem, de saltos, de coração.

domingo, dezembro 23, 2012

Poupança Imaterial


Poupança. Palavra trivial nos dias que correm. Numa assunção clara de poupar algo material. Mas em tudo há antagonismo. E hoje o que se tem poupado é imaterial. Poupa-se o tempo. O tempo de viver em família, o tempo de descansar, o tempo de pensar. Poupam-se os sentimentos. O amor pelos outros e por si próprio, a amizade e as partilhas, a verdade pelo que se é, o humor dos dias negros e de cor. Poupam-se os sonhos. De mudar, de ser possível fazer diferente, de arriscar.

Poupa-se a coragem de gastar tudo o que se tem “amealhado” no nosso ativo. E com isto é-se passivo, nas ações e nos pensamentos. E com isso a balança de pagamentos de cada um está desequilibrada.

Pela volatilidade dos factos, o dia de amanhã pode ser tarde. E a compensação do que ficou a crédito com os outros e connosco próprios pode vir fora de horas.

É simples perceber esta falta que se vive. Os especialistas, as troikas tecnocratas não compreendem esta simples premissa de que é preciso mudar o conceito de poupança e passar tudo o que é material a secundário, numa mudança profunda de valores, consumos e educações.

Enquanto o imaterial continuar a ser mero devaneio psicológico, a salvação será mera utopia.

Por isso, há que começar já a gastar o que está guardado para que a salvação seja o fruto merecido. Começar por um Natal especial e com sentido, faz parte do início da corrida até à meta.

E eu vou ganhar. Com o que recebo e com o que dou a mim e ao mundo, nesta perspetiva imaterial da existência humana. 


P.S. Feliz Natal para quem me lê :) 

http://www.youtube.com/watch?v=ZoJz2SANTyo


sábado, outubro 27, 2012

Enquanto não há amanhã





                                                                                               À minha Amiga Margarida

… (suspiro)…

Porque há músicas assim, que nos fazem arrepiar, sentir tudo na ponta do coração ou no coração por inteiro e que nos ligam aos olhos e às lágrimas não de pena, mas de estou no caminho. O deus é universal e tem quatro letras tão simples, letras de escrita e letras escritas por génios com sensibilidades diferentes.

Porque o sentir em mim ou nós será as juras para sempre. Até lá é preciso mudar o egoísmo que nos parasita. Adjectivar-nos de outras coisas, é urgente. Sermos nós, nós na nossa essência, com o melhor e o pior. O nosso melhor fará bem ao pior de alguém e o melhor de alguém fará bem ao nosso pior.

O gesto da revolta, do que tem que acontecer, do aborrecimento da crise ou da falta realmente dela. Porque a crise é mudança e até hoje não houve a mudança que é bonança. Numa tal rua da alegria, que continua pintada a cinzento. Fazer o que ainda não foi feito. Agora.

O momento que será sempre uma gota de água de mansinho que transbordará num rio de liberdade. Um toque no céu, como se fosse tão palpável e perto. “Pode o céu ser tão longe”?. O céu é o futuro. E o futuro é tão risonho quanto a resposta inocente daquela criança que irá criar um mundo melhor para ti ou para nós.

As pontes que se mantêm vivas em partilhas como estas e em cumplicidades de confiança. A iluminação de uma vida e de ideias. As tantas luzes que trazemos em nós. As tantas luzes que apagamos. As tantas luzes que ainda estão por acender.

Tudo nos faz viver, numa maturidade que se instala por si só. E sabes, no fim, o que perdemos, vamos perceber que ganhámos. E o ganho terá um sabor infinito. Acreditamos e isso basta.

P.S. Porque esta será a esperança de uma estabilidade que virá sem data marcada: http://www.youtube.com/watch?v=LEVXxlVA6GY

sábado, setembro 15, 2012

Explicação


Há no mundo da matemática e da “Normalidade” uma curva gaussiana que ousadamente nos mostra a banalidade dos seres e a “anormalidade” de outros, daqueles que fogem ao padrão e são, por isso, um desvio do padrão.

Um desvio tão incompreendido. Um desvio que faz ser sensível e chorar pelos sinais que aparecem, mesmo subtilmente. Um desvio que é tão difícil de viver pela complexidade dos pensamentos, das razões que damos às coisas. Um desvio que se transforma num desafio e numa aceitação dos 95% normais.

Hoje, procuro entender como é possível haver uma potenciação de seres que tanto divergem e que, curiosamente, parecem não se intersectar na linha.
Sabe-se que uma linha é um conjunto infinito de pontos, que saltitam de um lado para o outro. Sabe-se que há saltos momentâneos do intervalo dos 95% para o de 5% e do de 5% para os de 95%.

O que hoje procuro descobrir é se há saltos destes abruptos para sempre. Numa aceitação plena da diferença clara de gostos, de sentidos, de sonhos, de desejos.
Acredito que há e que é possível a linha manter-se equilibrada, sem muitos zig-zags. Mas para isso é preciso que a soma seja a unidade: 0,95 +0,05. Se não se conseguir a soma, não vale a pena prolongar a estadia no intervalo que não nos pertence.

Há que voltar à raiz e procurar a explicação do 5% ser tanto e ser capaz de criar cumplicidades especiais, embora possa doer num final.

No intervalo da “anormalidade” tudo é mais trágico, tudo é mais feliz, tudo é mais tudo. Porque aqui, o mais, é uma curva crescente do que somos. E neste intervalo, crescemos sempre para mais infinito e procuramos sempre quem o potencie mais e mais.

Acabo de te explicar.

segunda-feira, setembro 03, 2012

São as horas que nos separam


(Imagine-se o tempo em desagregação)


São as horas que nos separam. Numa desculpa ridícula de que o tempo é causador de insónias. Agora é hora de eu ir dormir como as crianças pequenas. Agora é hora de tu acordares como as pessoas grandes. Qual é a diferença destes tempos? Um lê a história para outro adormecer. Não há uma simbiose quase perfeita? Um desejo de se adormecer com vontade de sonhar com finais felizes? 

Aquela rua inspira-me, com o Sol a bater-me na cara. Sei que é tarde e sei que são as horas que nos separam. Como se houvesse um fuso horário nos nossos relógios. Como se aquela rua só existisse para mim e para os meus passos e para os meus pensamentos. Quantos textos já escrevi nela a voar? Em quantas pessoas já vi histórias que podia inventar?

Vou a correr sempre e vejo-te a ti bem devagar, sem a pressa de outros tempos. Aquela rua também tua todas as manhãs num trajecto que não sei. Apenas vejo a dificuldade e a persistência da tua história. Ainda é tempo de viver, dizes-me tu em silêncio, pelo teu olhar fixado nos chinelos enormes e nas mãos disformes. 

Que ninguém se ria de ti e do que és. Evaporas-te também numa rua só tua e imagino-te a voar. Já não te vejo mais e sei que são as horas que nos separam, numa distância que o tempo, que antítese, há-de resolver. 

Hoje são apenas umas horas, amanhã uns dias. E quando forem os anos, aquela rua já não existirá.

P.S. A música que deambula com os meus passos... http://www.youtube.com/watch?v=F8XzQRhvGjQ

terça-feira, agosto 21, 2012

Sombras II


(Foto de minha autoria)

Uma nova teoria da psicologia. As sombras. As sombras que trazemos e que não vemos. As sombras que os outros veem e que não nos dizem que temos. Por medo ou por acharem tão trivial. As sombras que dormem bem debaixo da nossa almofada e que entram nos sonhos de olhos fechados. As sombras que ignoramos e que nos fazem chorar, por sermos, realmente, partes escondidas dentro de nós.

As sombras que não cuido por ter a certeza incerta de que não fazem parte de mim. Enquanto vagueio nos meus pensamentos, nesta noite que me inquieta a alma, imagino-as a seguirem-me sorrateiramente e a esconderem-se sempre que olho para trás para confirmar a mentira de que elas não existem.

E, por isso, finjo que não as conheço, numa dissimulação emocional tão fácil. Sou sempre animosa quando sonho que é tudo perfeito.

Espero que, um dia, elas se apresentem através de algo ou alguém e que eu goste de privar com elas. Nada mais haverá a ignorar quando (quase) completar o conhecimento do que sou.

P.S. "Ser Capitã desse mundo/Poder rodar sem fronteiras/Viver um ano em segundos"... https://www.youtube.com/watch?v=exFdcUSfuqY&feature=related

quinta-feira, julho 12, 2012

Invisibilidade do tempo


O tempo tem as voltas certas no relógio invisível que me acompanha. Este ano as voltas foram muitas e os segundos de vida foram horas de silêncio. Estive na margem de rios e à margem do meu próprio rio. Estive sentada, como espectadora. O barco estava sozinho e seguia de modo imprevisível. Não tinha vontade de remar nem de ir com a corrente. O sentido contrário sempre me aliciou mais. Por mal, verdade seja dita. Pensava numa estratégia, mas não conseguia. A certeza de ter que voltar ao barco, bloqueava-me a luz da lógica natural do meu raciocínio. Os “como queria demonstrar” esqueceram-se de mim, e os planos que detalhei voaram. Tentei apanhá-los, em vão. Mantive-me quieta, e vi sonhos a serem arrancados com uma pedra. Com uma pedra que seca a água de rios. Como se os absorvesse todos dentro dela. Uma pedra de dor. Uma pedra feita de um buraco negro. Que aglutina a luz.

Foi à margem que vos acenei para sempre. Parti para um outro rumo, sem a certeza dos meus sonhos, das minhas vontades. Parti, porque era hora e estava a ficar noite. Não vou com a corrente, mas também não vou contra ela. Percebi que é possível navegar por entre as duas e chegar no tempo certo ao propósito.

E o relógio continua. Agora, as horas de vida são horas de crescer.

P.S. The Sun, The trees :) http://www.youtube.com/watch?v=6oTJmiQ1eRE

sexta-feira, junho 08, 2012

O dia não é agora


O dia não é agora. Perdeu-se a decisão no ar. Paralelas desenham-se com dedos a volutear num lenço branco. Os olhos fechados, à procura de algo pequeno perdido. O que se esconde numas costas voltadas não pertence à verdade. Não há olhares se eu não os olhar frente-a-frente. Mesmo que amiúde eu não saiba ler as mentiras. Se interpretar fosse a escrever seria mais fácil para mim.

A par de tudo isto.

O dia não é agora. Não há ar para o balão voar. A física evaporou-se e tudo está asfixiado. A água tem o que é preciso, o oxigénio e as palavras. Maresia traz de volta a vida. Perfumes de sonhos e ritmo. Molha-me os pés, faz-me cócegas. Dá luz ao cérebro e a todos os sentidos. Que magnificência respirar cada fruto das árvores que renascem num amanhecer de hoje.

A par de tudo isto fica um pedido.
Um número do avesso da minha alma, que possa ser o símbolo do sempre. 


P.S. Esta traz de novo ar e vêem-se muitos balões no céu: http://www.youtube.com/watch?v=dROJvBiHrnU

segunda-feira, maio 21, 2012

Sombra lado-a-lado

Quando duas sonhadoras se juntam, o resultado é inesperado e um sorriso certamente.
Eis um poema, a duas, de um sonho que tarda num por-do-sol que ainda não se ouviu.




Sabes que aqui estou.
Em bicos dos pés para que não oiças.
Sussurra aquilo que não quero ouvir.
E não me vejas.
Não queiras ser o que não és.
Sê a descoberta dos sentidos dos meus pés, dos silêncios das minhas palavras.
Fica forte, forte e inteiro, sê em mais além.
E vê a minha sombra que sempre te acompanha.
Num pasodoble a um dramatizado.
Num tango a uma valsa.
Em movimentos rotatórios do sol que me cria, a mim, sombra de mim.
Para no fim, no Sol-por, cairmos de braços abraçados, com a certeza que sempre nos vimos. 


Catarina & Ângela


P.S. A música de fundo é a história do Homem: http://www.youtube.com/watch?v=7Qqtqj1odfw

sábado, maio 05, 2012

O que chegámos a ser


Mãe, tenho saudades do que não fomos. Das conversas que não tivemos, das palavras que não dissemos, das brincadeiras que não fizemos, das gargalhadas que não demos.
Mãe, tenho saudades do que não foste. Das histórias que não me contaste, dos medos que me detiveste, das flores que não me deste.
Mãe, tenho saudades do que não fui. Dos sonhos que não te mostrei, dos beijinhos que não te dei.
Agora, queria zangar-me contigo e perguntar-te por que é que somos assim. Agora queria dizer isto tudo com os olhos de lágrimas e com um sorriso de bem-te-querer. Não me posso esquecer que a nossa ligação é umbilical e por mais voltas que dermos vamos gostar sempre uma da outra. As saudades serão sempre grandes, mas lembrar-te e tu lembrares-me será saudade do que chegámos a ser.
Um amor como este é para sempre. E sabes? O sempre é muito tempo. Eternidade.
Para ti, Mãe.
Catita