terça-feira, outubro 07, 2014

Tenho andado uns minutos antes do tempo acontecer

Tenho andado uns minutos antes do tempo acontecer.

As janelas sempre fechadas, para este “aqui” poder ser um sítio onde o tempo não aconteça. Onde haja a ausência dele, a vontade de ser silêncio e só (com pensamentos).

O mesmo acontece quando se olha vazio. Quando por momentos se perde a noção do quando, mas se ganha a noção do espaço. Tento entender este novo espaço. Despido de passado.

Tenho-me esquecido tanto dele, porque não há tempo nem espaço para que renasça em mim ou se lembre que ando por aí.

Revestido de paredes brancas de futuro.

Tenho-me lembrado tanto dele, porque há o espaço e o tempo são de futuro. Porque o que se faz é na “fé” de uns dias melhores, com a primazia do valor humano e intelectual reconhecido. Pelo que baste.

Com mais ou menos barulho vou conseguindo adormecer com sobressaltos do que vem por aí, do que me espera. É aquele medo próprio intrínseco à condição tempo.


Quando não há tempo, não há medo. E eu tenho andado uns minutos antes do tempo acontecer.

P.S. Não há mais palavras. https://www.youtube.com/watch?v=4PJ-dgnK-Ok

quarta-feira, setembro 03, 2014

Um teste

O tempo é isto. Uma sequência de imposições. Dos outros e tuas. Imposições sem liberdade. Cada vez os graus ficam menores. Por mais que não queiras ser do padrão, há o modelo. O melhor modelo de entre alguns. O modelo que os números dizem que é esse que se adequa (a ti?). 

Mas, e se… ? (interrompem os sonhos)

Não podes perguntar.

Mas, eu quero perguntar.

Quero inventar um novo teste que me faça sempre rejeitar todos os modelos. Todos os modelos que idealizam para mim. Todos os modelos que idealizo para mim.

Quero. Apenas. O simples. Apenas. O fecundo. Apenas. A paz. Apenas.


Quero. A mim. Própria. Sem floreados. Com as asas de uma andorinha que migra. 



P.S. *Quero acreditar que os que partem para se tornar estrelas o fazem para iluminar os que continuam, num altruísmo puro.

sábado, agosto 23, 2014

Que beleza há numa poesia que fala por si?

Que beleza há numa poesia que fala por si?
Num si de uma escala harmónica.
Num dó que dói por ti.

Não há métrica que seja ouvida.
No semblante que vejo longe.
Houve um dia que sonhei ser prosa em poesia lida.

E o sonho ficou em vão.
No meio da nostalgia.
Não me peças para dar o pão,
Quando és semente todo o dia.

E vou ficando calada
Para os que não querem sentir.
E vou ficando mais longe,
Do fim que minto para mim.

P.S. Este poema teve como inspiração o filme "O Clube dos Poetas Mortos". https://www.youtube.com/watch?v=ovyfbirtPLs&noredirect=1

segunda-feira, agosto 04, 2014

As estrelas

Não sei de quem é a culpa. Gosto mesmo de imaginar que seja das estrelas. Que iluminam histórias que querem. As que não querem mudam de cor ou fundem a lâmpada.

As que dormem por cima de mim ainda não perderam o brilho. A miopia que tende a crescer faz-me vê-las desfocadas. Ficam maiores e parecem aquelas fotos com luzes às bolas.

Gosto de imaginar que estas estrelas, que escolhi como minhas, saibam que têm mais para me mostrar. Mesmo que eu continue a acreditar no meu mundo, mesmo que me digam que não é bom ser assim. Pouco me importa.

Não me peçam para ser das massas. Iria odiar estrelas que brilham para todos. Iria odiar ser reconhecida por milhares. Só quero as que são minhas. E talvez alguma que seja tua. Para já.

São estas estrelas que me vão levar ao privilégio. De amar. Privilegiar e ser privilegiado. Inventar uma palavra que seja sempre e repeti-la as vezes suficientes para ser tão sentida.

Não faz sentido não sentir.


Elas lá sabem o que querem ver brilhar. As estrelas.

quinta-feira, julho 03, 2014

Ele és tu


Ele és tu.

Com o olhar misterioso. Com os pensamentos a mil. Com a barba por fazer. Com a chuva miudinha a molhar a roupa. Com a vontade de ir.

Ele és tu.

Mesmo que não mo tenhas dito. Mesmo que tenha sido em vão a fotografia do teu rosto. Mesmo que tenhas esquecido o sítio para onde olhavas.

Com uma certeza meio incerta.

Ele és tu.

E eu ali, aqui, analista de números e de fotografias. Técnica das luzes, dos espaços, dos tempos. Intérprete de perguntas (que esta imagem me faz, que quero fazer).  

Que cores antigas queres tu que te descubram em ti? Quais os lugares que te fizeram felizes? Quais os lugares que te prostraram o rosto na terra? Lugares humanos, sentidos, inanimados? Que tempos houve em que te deixaste ficar na simples magia de parar tempos?

Isto é ir mais. É ir aos teus heróis. É ir ao que és tu.

A tua mochila vai meio cheia, meio vazia. De tudo. De nada.

Um bolso eu já abri. Nos outros estão mais perguntas, estão mais respostas à espera de serem perdidas e encontradas.


Ele és tu. Assim. 

domingo, junho 22, 2014

O Senhor Ser Feliz

Há uns pedaços de tempo pediram-lhe para desenhar o amor. Pensou e sentiu tudo ou não sentiu nada. Deixou a folha em branco. Eu não entendi na altura. Para mim foi uma dinâmica fácil. Hoje, depois de já ter ontens, compreendo tão bem o significado. Aquele que é dado a um dos ângulos do amor.

Dá-se a mão a quem nos faz bem.

O amor anda de mão dada com o ser feliz. São seres diferentes, mas complementam-se e, ao mesmo tempo, abarcam-se um ao outro. Em linguagem matemática, o amor pertence ao ser feliz e o ser feliz pertence ao amor. O “e” assume o sinal mais.

Nestes conjuntos o espaço que os rodeia além da fronteira é lato. Nele podem haver imensas constelações. O amor e o ser feliz vagueiam de mãos largadas na liberdade que os caracteriza. Andam por lá a captar corações. São verdadeiros estrategas e cansam-se quando não há objetividade.

Ouvem muitas vezes que se isto ou aquilo acontecer é que se vai ser feliz. O ser feliz não gosta que se pense assim no futuro, sem que se perceba o que há hoje, o que há hoje que nos faz felizes. O amor não gosta que falem isso, porque ainda não sabe lidar com o amanhã. Apenas gosta de pela manhã abrir os olhos devagarinho e sentir que está Sol, que o coração permanece tão grande.

Quando há quem esteja nesta sintonia do agora, as mãos são dadas a três. De cada um dos lados vai o amor e o ser feliz. No meio, a simplicidade de uma folha branca com a dimensão infinita de ser preenchida à medida, à forma de cada um.


Tudo o que é branco tem espaço para ser feliz.

terça-feira, junho 10, 2014

Óculos à Warhol

É em dias como este que eu queria uns óculos diferentes. Ao invés de ver melhor, com mais nitidez o mundo, via-o com outras cores e com um astigmatismo pop.

As lágrimas a correr passariam a sorrisos. Os pensamentos monocromáticos pretos passariam a optimismo puro.

Para quê a canseira destes tempos? Para quê a vontade de querer fazer mais e melhor? Para quê não guardar trunfos até, até à última, última jogada?

Se hoje sair à rua com os meus óculos, vou ver tudo pior. Seres humanos sem tecto, sem comida, sem alma. Ares poluídos física e psicologicamente. Falta de inteligência. Filhas-putices na esquina da rua da louça ou nas outras a seguir, a seguir.

Ontem, ofereceram-me uns óculos usados. Década de sessenta. Traziam como inscrição: “usar quando precisares de sonhar”. Não os experimentei. Por isso, fiquei surpresa quando hoje me vi neles. Fiquei bonita e com as faces ainda mais rosa.

À minha volta tudo ganhou umas tonalidades azuladas, amareladas, de desenhos animados requintados, como se todos estivessem no seu direito de “5 minutos para a fama”.

Eu não quero ter fama de vedeta. Quero ser apenas eu, eu mais, eu melhor, eu crescer. É para isto que vou continuar a ir, ir. E agora melhor acompanhada.

Os óculos já estão na minha mala.


P.S. O Andy Warhol teve uns óculos destes e via o mundo bem mais bonito. Não andava sempre com eles, para não cansar os olhos. O modo de prescrição já foi dito.

sexta-feira, junho 06, 2014

sábado, maio 31, 2014

Reinventando

Reinventado Guernica de Picasso...

...

Precisamos de uma Guerra. 

Uma Guerra de Homens. 

Homens iguais a ti e a mim. Homens que gostem de lutar com armas diferentes. Homens sem medo de colorir o mundo, de transformar o sangue deste Guernica em abraços demorados. Homens que não gostem de pisar seres, nem tenham uma capa vermelha à espera de touros para matá-los. 

Precisamos de uma luz. Igual à do quadro. Uma luz que tudo vê e que nunca perde o brilho ou fica fundida. Uma luz que faz das bocas abertas de gritos, bocas que entoam uma palavra de ordem. 

Hoje a Guerra começou.

Vejo-te sem o escudo ao peito.

A Paz está a chegar.


terça-feira, maio 13, 2014

Nascer é muito mais

Nascemos pelo simples ato de alguém ser amor. Perpetuamo-nos no tempo e adormecemos. Na manhã seguinte, somos nós a nascer de novo. Espreguiçamo-nos e olhamo-nos. Há dias de luz, outros de escuro. O espelho reinventa connosco o nosso rosto. Todos os dias nos vê diferentes.

É um ser inanimado que apenas nos mostra o que queremos ver. E quem vê mesmo de verdade, sabe e sente que nascer é muito mais do que o nosso dia de anos.

Nesse dia, ficámos feitos de pós celestiais de uma supernova. Nascemos com a explosão de estrelas e logo em breve morremos na invisibilidade das partículas. Nasceremos de novo com outra explosão até perdermos de novo a luz.

Neste zig-zag do nascer percebe-se claramente que tem que haver uma fonte de energia. Será o sol? A lua? O vento? A maré?

Será esta última desconstruída. “Amare”, como se lê. Amar, como se escrever. O nosso início foi feito disto. E se nascemos de novo é porque amamos coisas na vida, coisas que cada um sabe e sente.


Nascer é muito mais do que o nosso dia de anos.

P.S. Esta fala-nos de como nascemos, dos pós celestiais que temos: https://www.youtube.com/watch?v=iQJ6hjJtf6Q

quarta-feira, maio 07, 2014

Procuro-te

Procuro-te neste barulho. Neste ressoar de motores de carros, de passos apressados, de luzes incandescentes, de ondas de rio a bater nas margens, de prédios altos, de vento a despentear-me os cabelos.

Procuro-te com a ansiedade óbvia de querer paz. A serenidade transforma-nos e leva-nos ao nosso primeiro estádio no mundo.  

Procuro-te dentro de mim. Neste enorme coração que tem um ritmo próprio, no toque de anéis nas minhas mãos, nos meus pensamentos e sorrisos.

Procuro-te. Procuro-te.

E não te encontro.

Mesmo fechando os olhos, mesmo tentando telepatia, mesmo rezando. Mesmo à noite, bem antes de adormecer, oiço pássaros noctívagos.

E não sei como és.

Talvez sejas um frio, uma ausência de cores ou a soma de todas elas. Talvez tenhas ficado suspenso no início do mundo para que ninguém te pudesse conhecer. Talvez Deus tenha sido egoísta e tu sejas o Paraíso.

Já pensei subir a montanha mais alta e procurar-te lá do alto. Quando se vê o mundo inteiro, ainda haverá algo a escapar-nos?

Não sei quando te irei encontrar. Sei que vou continuar a sonhar contigo. A querer-te a apaziguar o que sou.

Não sei onde estás. Sinto que existes e que andas por aí. Vou começar a procurar-te no singelo.

É o silêncio que quero encontrar.


P.S. Não há música, porque o silêncio hoje não se quer expressar assim.

domingo, abril 13, 2014

Tenho-te sonhado

É como se falasse italiano ou francês, que é como quem diz, são as línguas que utilizo para os sentimentos. Ficam registados com outra fala para que bom entendedor não entenda. No entanto, há o Português que teima em traduzi-los e quando a tradução acontece, há o corrupio do medo. Tal e qual como naquela peça de teatro, onde as aias se confundem com as princesas e os salteadores com os príncipes.

Tenho-te sonhado com a primazia do ser. Tenho-te sonhado poliglota dos sentimentos, adivinhador de teatros mal encenados. Talvez seja eu a crítica das falas, a pedir que se tenha alma nas personagens, a pedir para tocar quem nos ouve. Arregaço as muitas saias e corro até me sentar com um leque. É a vez de te ouvir. Para meu espanto, esqueces as falas e improvisas. Sabe bem ouvir-te.

As luzes vão variando e as formas desenhadas nas paredes transportam-nos para o sonho. A música entrelaça a realidade reduzida com a aumentada. Pareço ser especial por presenciar tal peça. Gosto disso e gosto deste tempo que dou ao conhecimento de quem vale a pena. Gosto deste lado artístico da vida, das integrações e das desintegrações, destes jogos de amor.

Parece que falei Português. Aplausos.


P.S. Escolhe tu a música. 

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

À avó

Os tempos já não eram fáceis. O cérebro há muito que se comprometia com o presente e o futuro já nem existia. Vivia, porque tinha que esperar pela hora. Aquela hora marcada num dia de chuva.

Sei que gostava de mim, mesmo que nestes últimos anos já não soubesse com toda a certeza o que eram sentimentos. Eu também gostava dela à minha maneira. Pelos doces de criança, pelas faces rosadas iguais às minhas, pelo feitio também tão idêntico. Era querida e alegre.

Lembro-me de lhe dar catequese ao sábado. Lembro-me de ela adormecer a rezar o terço. Lembro-me de ela comer às escondidas. Lembro-me de ela desejar a outra vida algumas vezes. Lembro-me do cantor favorito dela. Nas últimas conversas perguntei-lhe se ela sabia quem era Deus e se ele existia. Disse-me que sim às duas.

Hoje foi o final da vida dela. Aquele final que não se aprende na escola, nem em nenhum dos contos que lemos por lá. Hoje enquanto ouvia o Padre, achei que não fará mal acreditar no que ele disse. Acreditar que a vida é uma poesia e que neste fim começamos uma nova vida. Deixamos de viver numa tenda frágil e passamos para uma casa segura.
Hoje acredito nisto. E acredito que Ele te acolhe por sempre acreditares. A fé é isto mesmo.

Desculpa a distância em tudo. Quando crescemos ficamos assim. Parvos e egoístas.

Aí do céu, lê poesia para mim e reza por nós e por um mundo feito de Homens de coração.

Eu vou continuar a minha corrida de miúda à procura de um caminho feliz.

domingo, janeiro 26, 2014

A diferente chuva

O meu cabelo ficará molhado. Não do banho, mas da chuva de ideias que lá fora espreita para cair.

Hoje não é só mais um dia. Hoje há poesia lá fora. As luzes das aldeias abrem-se por entre os cortinados transparentes.

Ninguém adivinha que hoje a chuva será diferente. Enrolo-me nas mantas deste inverno frio e espero pelo sinal. Deambulo nos meus sonhos e na exigência que tenho para mim. Sou alheia ao enredo e faço a minha própria história.

A estrela bateu-me à janela. Saio com pés de lã e deito-me na relva verde à espera que esta chuva caia. O meu cabelo brilha, os meus olhos transformam-se em luz e o meu coração fica enorme.

Vejo o ano passado correr-me nas veias, com todas as coisas boas que me aconteceram, com todo o crescimento que tive. Sou mais, tive mais, aprendi mais, dei mais. Foi um ano de realizações. Os concertos, as viagens, os teatros, as fotografias, os olhares, os toques, as partilhas, os sabores, as essências, os trabalhos. Por fim, a pequena S. que terá um lugar diferente e novo neste caminho.

Sinto que alguém se deita ao meu lado, ainda que invisivelmente. Diz-me para continuar com a mochila às costas e com os sonhos que crescem. Diz-me que terei companhia e que o caminho nunca será egoísta. Diz-me para escrever e não ter medo que os outros leiam a minha alma. Desaparece de mansinho e eu volto à janela. A estrela diz-me adeus e até breve.


Acredito que seja alguém sábio e eu gosto de sabedoria.

sábado, novembro 02, 2013

Postal de Florença

Florença é para ser vista do alto. De cada lado da ponte vecchio. A torre do palácio, a cúpula da enorme catedral, por um lado, os jardins do outro palácio e o miradouro, por outro. Sentimo-nos pequenos e sonhadores ao mesmo tempo. Florença é “pequenina”. As gôndolas são aqui substituídas por coches nas ruas. Havia pintores pelas ruas como outrora, barulho nocturno de sexta-feira, “bairro alto” lá do sítio e teatro de rua. A música do rádio do artista chamava as pessoas. Aos poucos a roda compunha-se de culturas. O artista gostava delas. Chamou um americano gorducho e uma sul-coreana magrinha e de minissaia. Hum… apimentava-se brincadeira e gargalhadas. O melhor foi as crianças. Primeiro a menina sem medo e que ficou com medo por ele lhe ter tirado os óculos. Segundo, o menino com medo e que ficou sem medo. Foi este que ele escolheu. Ensinou-o a benzer à frente de todos. A fé anda nas ruas.

David.  É um dos sinónimos de Florença. A estátua é enorme e olhar para ela, andar ao redor dela, pensar que foi esculpida por Miguel Ângelo, faz-nos sentir outra vez pequenos e sonhadores. David ganhou Golias e esta história do antigo testamento eterniza a força da inteligência e da coragem à brutalidade de alguns seres.

Mais arte, daquela que sempre vi em fotos e que um dia seria vista pelos meus olhos. Vénus. A Vénus de Botticelli. Para mim o nascimento da espiritualidade feminina, na nudez que é o amor.


Voltar a recordar Florença é lembrar-me do sino. Do sino que nos deu as boas vindas com um Sol ainda reluzente. Voltar a recordar Florença é lembrar-me do canto e do violino. Do canto e do violino que nos deram as boas idas com um Sol ainda reluzente. 

Fica para sempre.


sexta-feira, outubro 18, 2013

Amar é isto.

Somos feitos para ser com os outros. Não sozinhos. Acompanhados com. Querer conhecer os outros um pouco mais. Querer partilhar um pouco mais do que somos. Na verdade. Sem máscaras.

Nunca nos conhecemos na plenitude. “Viajar” ajuda. Quando se faz um percurso do que já passou, das “sortes e dos azares”… enfim, da vida que nos faz ser.

Amar é isto. É querer ir. Ir sem saber o que se vai encontrar escondido no recôndito de uma alma humana, como a nossa. Com tanta fragilidade, com tanto medo, com tantos sentidos. Ir com a certeza de que é bom partilhar, mesmo que doa e que essa seja a “dor do coração”. Poucos há os que a sentem. Ou porque não querem que se vá a fundo no descobrimento dos pedaços ou porque simplesmente ainda não foi a hora.

Os primeiros são os que preferem a ausência de luz. Ficar ali pela vista de lustro de fora. Dá trabalho, é exigente ir ao cerne, ao nosso, ao meu, ao teu.

Só há almas escuras se não te predispuseres a acreditar que podes ser uma luz. Cada vez que há um raio, conhecemo-nos melhor. Às vezes fica claro demais e a nossa verdade confunde-se com ódio. Parece mais fácil ficar na escuridão. Mas, sabes, no fundo temos tanto, tanto e somos tanto, tanto, que guardar isto apenas para nós é um egoísmo ricardiano.


Amar é isto. É querer ser luz e é gostar de ser claro. 

P.S. "Yeah we still got time"... http://www.youtube.com/watch?v=WWJfsGoc6fw 

sábado, outubro 05, 2013

Postal de Veneza

O primeiro momento ter sido à noite trouxe um outro sentimento à cidade. As luzes e o pouco barulho nas águas adivinhavam um amor crescente ao labirinto que iria percorrer. Não é fácil saber onde se está se não houvessem placas com os nomes das ruas ou das praças. Perder-se naquelas ruas é encontrar em cada recanto umas flores penduradas nas janelas e uma gôndola enamorada nos mares. Veneza cheirava bem. Cheirava a perfumes caros. Além das fotografias queria ter fotografado cada uma destas essências. Veneza tinha muita luz e dava para ver os Alpes. Eu reluzia com ela, no meu jeito envergonhado e com a minha sede de ser cidadã do mundo. Os palácios e a cultura faziam-me sorrir alto com os exemplos de cuba, com a contemporaneidade da arte. O nosso português entranhado naquelas ruas, pela fala e pelo fado. Lá também se estuda a nossa língua. Que bom encontrar acasos que nos fazem sonhar como a Alice no país das Maravilhas. As quatro estações na acústica perfeita de uma igreja. Deus também gostou de ouvir, tenho a certeza. A praça com a multidão, o vento na cara enquanto se navega até outras ilhas. A chuva forte da noite. A despedida na ponte que atravessa o Grande Canal e que os meus pés subiram e desceram não sei precisar as vezes. Foi bom deixar-me estar a saborear o pôr-do-sol ao som da água que embala sonhos. É para voltar e ver a aqua alta.


segunda-feira, julho 29, 2013

Era assim que queria ir

Era assim que queria ir. Com uma mochila às costas e ir. Não ter medo do tempo e ser contemporânea em todos os momentos. Caminhar, caminhar, caminhar. Até sentir que estás lá também. No caminho. Não à minha espera, mas à tua.

É um dos meus sonhos. Percorrer toda aquela muralha e encontrar-te no meio, por acaso, no acaso dos deuses. Fechar os olhos e ter a certeza que sim, que o vento me leva ao leme.

Serei eu a mulher do leme, que frágil faz dos braços fortes a força de não desistir. Navegar, navegar, navegar. Até sentir que o mar alto é calmo quando me lembro do sonho que está por viver.

É um dos meus sonhos. Parar a cada tempo, enroscar-me no cachecol e escrever cada página daquele caderno com a letra leve do céu. São palavras bonitas, acredita. E se, realmente, te encontrar por lá, deixo-te ler o que escrevi e leio-te em voz alta cada palavra que trago aqui, comigo, à minha espera.


É a hora. Já parti. A mochila vai com o essencial do Exupéry. Se não nos virmos por lá, os deuses não existem e prossigo sozinha o sonho que há-de vir. 

domingo, junho 02, 2013

Comprometimento

“Hás-de amar, quer queiras quer não. As emoções vão e vêm como as nuvens. O amor não é apenas um sentimento. O amor demonstra-se. Amar é correr o risco de falhar, o risco da traição. Temes que o teu amor tenha morrido. Talvez esteja à espera para se transformar em algo superior. Acordem a presença divina, adormecida em cada homem, em cada mulher. Conheçam-se um ao outro nesse amor que nunca muda.”

Há dias em que o pensamento trai as palavras que saem da boca. No meu caso por ingenuidade e por sonho.

O título vagueava pelos meus sentidos no sentido de esperar um ar fresco que entrasse pelo meu olhar adentro e se deixasse ficar aí.

Começou sem silêncio, com a luz, com as folhas, com a água e com o vento. O vento sempre presente. O vento, que para mim, é significado daquele ar fresco, de correr o mundo à procura da essência do cerne de cada um.

A corrida pelo mundo nota-se pelos constantes movimentos da câmara que perseguem cada história, cada corpo, cada alma. Faz de propósito e não deixa que o olhar pare, faz dele o maior atleta. Olhar e encontrar sem tentar qualquer descanso merecido.

Pode-se dançar enquanto se corre aquele mundo. E aquela dança é um sonho de liberdade. Uma liberdade condicionada às falsas presunções de que aquilo é que é ser feliz.

Não o é. Nota-se pela dor que se instala silenciosamente sem que outra das partes perceba ou queira perceber que não há felicidade assim. O castelo cinzento do início prenunciava a morte lenta dos sonhos e a cidade do amor ridiculamente prenunciava que um cadeado não é eterno.

Eu digo não. Não quero amarras, nem muros na procura. Quero apenas comprometimento. Um comprometimento que me saiu assim [naquela pequena traição do que me ia na alma às palavras que disse]:

Um bilhete para o “Grande Amor”, por favor.


sábado, abril 20, 2013

Figura de estilo



Hipálage. Um pensativo cigarro.

Assim era aquele olhar. Um olhar pensativo, como o de um cigarro fumado de pé, com a nudez própria dos pensamentos.

Podia fechar os olhos e via tudo da mesma forma. As cores frias do quadro. As cores quentes daquela vida. Uma diluição de ar pelo corpo inteiro à espera do nada. Do nada vindo da janela. Da luz da janela.

Porque a luz era precisa nos olhos, para os queimar, cegar até ao ponto de tatear todas as paredes à procura de cicatrizes.

Nada se encontraria. Apenas música. Música tatuada na pele quase infantil. Música de chuva, e de escuro. Como se só o som significasse uma inundação.

A chuva é precisa. Para regar os jardins que estão lá fora, depois daquela janela. Para dar mais cor à terra que se vê na linha do horizonte com os olhos fechados.

Era esta a figura de estilo. Ir pisar um chão de terra logo após a janela.



Obrigada Hopper, pelo quadro, pela inspiração.

P.S. Fica a música do quadro: http://www.youtube.com/watch?v=9znJMAqOpA0