sexta-feira, novembro 13, 2009

Pensamento


Ritmar a nossa vida com memórias materiais, e não apenas mentais, é lembrar sempre de alguém que passou pela nossa casa “Ser pessoa”. É deambular pela história de vida e sorrir por ler uma carta, por ver uma fotografia, por cheirar um perfume, por ouvir uma música. É saborear a nostalgia de tantos momentos que vagueiam pelas divisões da nossa casa.

Gosto de enriquecer a minha casa como todos aqueles que me cativam com o agrado de uma surpresa boa. Gosto também de partilhar a minha riqueza pessoal especialmente com quem me acolhe e com quem eu acolho. Para mim, estes meus gostos, são importantes. São uma das minhas formas de reflectir como vivo a amizade.

Com tudo o que experienciamos marcamos no nosso mapa todos os pontos importantes. Tenho a certeza que tudo valeu a pena e que no fim do caminho o mapa de cada um terá pontos comuns com outros mapas. São estes pontos de intersecção que alentam a minha vontade de existir comigo e com os outros.

Tenho dito.

P.S. *Nós somos tanto... e o sonho permanece :)

sábado, outubro 17, 2009

Frio


Frio. E os teus abraços distantes de calor. Mel de dias de sol e manhãs frescas do teu olhar.

Frio outra vez. Cobertor castanho de pelo macio para adormecer.

Limpar da memória todo aquele tempo de sonho e viver o que foi escolhido, o que foi imposto sem eu saber bem por quem.

Perfume de primavera e folhas de Outono. Folhas amarelecidas iguais ao esquecimento e à ausência.

Cascata de água gelada e simples toque de aproximação. Que mais será um princípio?

Ser um rio ou uma nuvem ainda é a minha dúvida. Ontem fui um rio, ontem fui uma nuvem a quer chorar.

Hoje sou uma perla a bailar num mar, uma metamorfose a eclodir no céu.

Pés de cristal não partem e vozes de encenação não se ouvem.

Continuarei calada sem escutar qualquer murmúrio de tuas palavras até, quem sabe…, o nosso juízo final.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Uma flor a querer vida


Estávamos sentados e sentíamos que íamos partir. Eu adivinhava a distância, tu a ausência que se avizinhavam. Aquele relógio contava dois minutos. Foi o instante de tempo que mais rápido passou por mim. O ponteiro dos segundos acelerou muito e num ápice largamo-nos como se fossemos duas peças partidas de um só puzzle. Eu entrei, tu caminhaste lado-a-lado com os teus pensamentos e o ponteiro retomou o seu ritmo. Eu fiquei comigo e com as minhas palavras e deixei-me adormecer num sonho inacabado.


Hoje abri os olhos.

Reparei que apenas um pedaço do sonho existiu.

Hoje esqueci aquele relógio e as últimas palavras recônditas ao ouvido.

Hoje o dia estava cinzento e todo aquele fado tocado imperava nos assobios das aves.


Lembrar-me de tudo e deixar páginas em branco é ter medo de reescrever uma história de crianças. O vento irá levar-me para onde ele quiser e para onde eu quiser... não sei se irá voltar. Tudo ficou como uma flor a querer vida.

domingo, agosto 09, 2009

Mudar


(Sem imagem, porque há memória)


Se tudo se assemelha a um livro, um novo capítulo foi começado a ser escrito. Desta vez com novas cores e com uma nova caligrafia. Deixou tudo de ser racional e amargo. As folhas ganharam uma nova essência. Uma essência inocente e magistral. O livro está mais rico, com uma alma de sonho e com poucas reticências. Uma borboleta eterna começou a ser desenhada e sorri cada vez que adivinha os pensamentos dos compositores de histórias com sabor a água de escorrega. Não há poemas, mas há poesias e há prosas com mil dons de perfeição. É uma história muito mais do que original.

Cheira a natureza e tem gosto a manhãs de Sol. Uma delícia para quem sabe ler.


P.S. "De quantas graças tinha, a Natureza/Fez um belo e riquíssimo tesouro,/E com rubis e rosas, neve e ouro,/Formou sublime e angélica beleza." Luís de Camões

terça-feira, junho 23, 2009

O que há


O caminho era coberto pelas ramagens das árvores seculares e estava escuro. Os passos eram curtos porque o silêncio não deixava que o vento afastasse uma alma. Os passos eram curtos para ficarem cravados no chão daquela terra. Os passos eram curtos, porque a noite permitia a espera. E lá estava sem relógio e sem tempo.

O tempo devia sempre parar quando os passos se encurtam. Os relógios deviam dissolver-se sempre que o tic-tac deixa de se ouvir.

Parado, quieto, sossegado, de pé, com um sorriso enigmático e mais qualquer coisa.

Saber interpretá-lo era saber entender uma ave a chorar, era saber sentir a finitude dos momentos.

Alguém também sorria, para retribuir, e sentia-se pequeno naquele mundo colossal e complexo e sentia-se protegido e bem e tranquilo. Era a mistificação do oculto, era a mestria das horas, era o significado do belo… tudo unido numa só ramagem de árvores e num só caminho de pó.

O pó não devia cegar-nos.

Os braços enlaçaram-se como outrora e os sorrisos alienaram-se para sempre. Os passos continuaram pequenos, dois a dois, e o caminho permaneceu escuro e mágico pela noite.

Somos feitos de finito. Eles de infinito.


P.S. Uma vez alguém dizia qu eu escrevia em sépia. Um sonho.

sábado, maio 23, 2009

Saber que sente


Não percebe como sente, mas sabe que sente um rodopiar de anestesias bem no interior.

É um sentir inquietante, envolvente, imprevisível.

É uma onda de mar a escarpar as rochas e a levar areia do caminho.

Não se pergunta, porque tem-se medo da resposta e não se fala, porque não se sabe a melhor forma de sussurrar.

É um bálsamo quente e frio que deixa um rasto seco na garganta.

Intrinsecamente tudo é explorado e as mãos ainda que invisíveis percorrem aquele rosto como se uma cegueira enorme existisse.

Não se pede, porque as margens não se encurtam, mas ouve-se.

Ouve-se todo o olhar fundo e toda a dificuldade que há em olhar para não sentir, ouve-se o sorriso de uma criança que existiu, ouve-se uma música sempre que se lembra de uma noite e ouve-se um abraço quando se sente que valeu a pena.

Não percebe como sente, mas sabe que sente tudo de algumas maneiras.

Saber que sente é saber que há um vazio ainda por completar.

quinta-feira, maio 14, 2009

Eu velho, tu criança


O tempo é marcado pelas nossas duas vidas. Eu velho, tu criança. Levo-to como se me pertencesses e como se eu pertencesse a alguém. Talvez pertença ao caminho percorrido, que tu olhas com admiração ou talvez pertença às raízes das árvores que me acompanharam sempre. Tu pertences a ti mesmo, à simplicidade do teu olhar, à inocência das tuas palavras, à rebeldia dos teus actos. És uma criança que corre mais do que aquela bicicleta que eu usava para te ir buscar, mais até do que a corrente daquele rio que nascia bem perto da minha casa.
Hoje sinto-me a desequilibrar na bicicleta, as minhas pernas estão pesadas e estou sem forças para prolongar o teu ritmo de vida… Talvez pudéssemos trocar de papéis: tu conduzes-me e eu deixo-me conduzir. Mas, saberás o destino que tenho que tomar? Mesmo criança, saberás que é longínquo, mas também saberás que o assobio do vento, os suspiros da lua e os sorrisos do Sol te levarão sempre até mim. Basta sentires tudo isto enquanto pegas na minha bicicleta e me vês atrás de ti ou à tua frente. Sei, que haverá dias que serei eu a levar-te para casa e haverá outros que serás tu a levar-me para o céu.


A linha do teu olhar cruzar-se-á sempre com a minha naquela que é o fim da linha do nosso tempo. Eu velho, tu criança.

quinta-feira, abril 09, 2009

Um chá


Talvez um chá pudesse ajudar ou mesmo a tua voz. Sentir que o vento tudo levou e que as pegadas do teu rosto desapareceram com o meu toque na terra. Real. Isto é real, não é pura imaginação do teu ser nem do meu. Não lembrar de quando foi o último gesto é lembrar de um olhar abatido e vazio. Mais vazio do que uma cadeira de pernas para o céu, mais vazio do que um jogo de xadrez sem rei, mais vazio do que um copo sem água. Poderia ter sede desta água ou esperar que gota a gota caísse no copo para eu poder bebê-la pelo raiar da nossa manhã de vida. E poderia esperar por este dia e desaparecer na tua eternidade que nada, nada do que pensámos seria diferente. O teu modo condicional impõe-se a mim e por mais que me queira afastar os pólos são opostos e sem dar conta, uno-me cada vez mais. Talvez um chá pudesse ajudar a revolver o magnetismo da nossa presença.
a tua voz não é quente.

quarta-feira, março 18, 2009

Voo de distância



Antes a história era assim:
Era uma vez…


…Um pássaro…

Um pássaro sem medo do vento, do sol, da noite, da chuva. Um pássaro tranquilo e ao mesmo tempo tão preocupado em fazer a sua rota. Um pássaro que pára para descansar e encantar pela sua voz. Um pássaro ousado pela vida.


...Um canto…Um canto que uma noite surgiu do absoluto. Um canto que transparece em palavras e em imaginações. Um canto com alma e essência capaz de saber sorrir e segredar segredos sem fim. Um canto afinado e vivo.


...Um voo... Um voo minucioso, colorido, especial. Um voo aliado a asas de algodão em busca de um castelo longínquo. Um voo com vontade de voar mais e mais, sem olhar para trás e sem pensar nos condicionalismos que há. Um voo autêntico de uma ave rara.


Agora a história é assim:


Era uma vez estes pensamentos e era uma vez em que estes pensamentos se tornaram irrisórios ao ponto de eu deixar de acreditar neles. Era uma vez o pássaro que voou por querer voar sem saber cantar um canto de explicação. Era uma vez um voo de distância. Era uma vez um aproximar exigente. Era uma vez um sonho meu.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Hoje não


Sem chão, sem terra firme. Um pouco assim me sinto por não saber o que pensar, o que dizer, o que esperar. Saber que pode ser mágico não atenua o pedaço de mim. Podia precisar de janelas e portas para fugir, podia precisar de réstias de noite para me afundar e cair no vazio, no infinito simbólico que existe. Mas, hoje não há janelas nem portas nem réstias de nada; hoje só existo eu, apenas eu comigo e com os outros e com Alguém, não eu contigo, eu sem ti.

Hoje fico a pensar que o meu chão ficou invisível, e que não vou cair mesmo não vendo o chão e que não vou falhar mesmo sabendo que já não existes, mesmo sabendo que queres que eu sinta que já não existes. Hoje não vou tropeçar mais uma vez, hoje não me vou demorar nas minhas poesias abstractas com aquele sentido, hoje não vou confiar no que é dito sem escutar o essencial com os meus olhos. Hoje não.

Este hoje com sentido de futuro e com sentido de mim com um chão balanceado.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Acaso


Por um olhar, por um sorriso, por uma noite, por uma dança.


Acaso.
Anonimato.
Aparente esquecimento.
Acaso outra vez.
Vêm…


Palavras, sonhos, rumos, estrelas, bússolas, neve. Neve branca como eu ou tu. Bússolas para o mesmo norte. Estrelas para o brilho permanecer. Rumos de acaso. Sonhos de amanhecer. E. Palavras, tantas palavras, tantas que me dão mestria e significado a estes dias.


Nada é efémero quando é possível parar o tempo e lembrar e não esquecer do vivido e do sonhado. Nada é efémero quando eu existo e sinto que alguém também existe. Nada se perde também, apenas nos moldamos continuamente. E somos moldados. Não somos esquecidos, somos queridos por um alguém. E é este “querer” que permite sorrisos simbólicos e desejados e olhares que falam mesmo havendo aquele ou outro silêncio.

Às vezes não precisamos perceber; às vezes, basta sentir e navegar no mesmo “calmo mar”.
Catarina

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Indefinição infinita


Não ter voz e por isso tocar. quase como o vento, levemente. As mãos suaves trazem as melodias do que se quer escutar e a porta abre-se e o som ecoa por todo o espaço. O gelo parte e um êxtase existe. Querer que a melodia fosse infinita, que o som perdurasse o tempo de uma vida inteira e mais do que isso que alguém ousasse esperar pela última pauta de notas. Querer isto e nada mais. a felicidade, a entropia inexistente. Querer que me possas ensinar a tua música, o teu olhar esbranquiçado e a tua apaixonante forma de ser. Querer tanto e saber que este querer não vai bastar. Nunca bastou. Basta.


Catarina


P.S. Apetece-me fechar todo o céu em mim...


quarta-feira, dezembro 24, 2008

Filhos do Coração


Pendurar numa moldura a tua fotografia e adoptar-te à distância. Olhar o teu sorriso e ter pena e ter esperança e ter vontade de te ir salvar e ter consciência que é impossível.... Mudar o que está mal, mudar o que não gosto, o que não está certo, o que não podia acontecer. Mudar uma dinâmica de felicidade e pobreza de espírito.

Fé. O melhor que se pode ter. E a diferença? Vem de: Um gesto: Dois gestos: Três gestos: Muitos gestos. O mundo balança e deixa cair os maus e ficam de pé as crianças, o futuro deste amanhã.


Feliz Natal :)


Lembrem-se dos "Filhos do Coração" que andam por aí esquecidos...

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Difícil


Sentir. Sente. Sentimos. Que um dia tudo pode ser como pensávamos, que nunca haverá aquele choro, aquele escuro. Que um dia tudo ficará estático como um relógio sem pilha, como um deus sem tempo. Vem a razão. Reflecte-se. Sabe-se que haverá para sempre uma parede a separar os dois mundos, uma pedra a atrapalhar os desejos, um abismo até. Não quero. Não! não quero. Saber que uma parte estará completa para sempre e que outra estará vazia para sempre. Saber que uma esfera rolou e subiu mais e mais e que outra continua parada, como se fosse possível. Deixar-me e não querer, deixar-me ir e vencer naquela batalha e perder na mais importante para os Homens. Encontrar uma ilha e esperar que chegue um barco ou esperar um barco e encontrar uma ilha? Parece difícil, mas calma. O tempo chegará, os ponteiros são sempre cíclicos. E em qualquer viagem, em qualquer partida, haverá quem esteja à nossa espera na chegada. E Se não estiver inventamos, procuramos, achamos e somos felizes. Talvez seja esta a receita…

segunda-feira, novembro 24, 2008

Era uma vez uma sombra...


Era uma vez uma sombra...

Adormeci num sono compassado cuja melodia eram a ternura de abraços. Volta e meia os seus passos seguiam-me em sapatinhos de algodão e eu ficava sossegada, calada. Estava sempre atrás de mim e eu não vi, não fui nunca capaz de ver. Uma cegueira enorme, um desafio oculto. Era uma sombra, sim, mas diferente. Era reflectida para trás, impossível de eu correr atrás dela. Apenas ela, só ela, poderia correr atrás de mim. A verdade é que nunca se cansou, porque eu sempre andei devagar, sem pressas, sem rumo, sem nada.

Houve um dia que a sombra desapareceu. Não sei se dei conta, não sei se queria dar conta. Ela deixou de me abraçar e de me levantar cada vez que eu tropeçava naqueles fios de tempo. Cansou-se, é certo. Talvez da minha insegurança ou mesmo da minha falta de iniciativa para correr até ao céu e lançar-me naquele baloiço até ao mar. Também me cansei por não a ver, por apenas ouvir caminhadas quietas e sorrisos plácidos.
Sorte, indiferente. Expectativa, nenhuma.

Era uma vez uma sombra...

Que
...

sábado, novembro 01, 2008

Devaneios floridos


O jardim está a adormecer e ouvem-se os suspiros das flores. Eu escrevo com a mão quebradiça ao som do adormecimento da terra. Está escuro lá fora, o silêncio já se ouve. A manta aquece o corpo e alimenta a criatividade.


Olho para o horizonte e imagino uma flor sem sono que teima em ficar acordada para sempre. E eu rio-me com estes meus devaneios floridos. O sempre, o sempre - penso. O sempre é relativo como a minha sede por esta terra. O sempre é impossível mas ao mesmo tempo fácil de se sentir. O sempre existe quando eu digo que existe uma flor que não dorme. O sempre existe quando eu oiço uma estrela a guiar uma flor. O sempre existe quando eu vejo duas flores unidas a um luar sem sono.


Estas flores são humanas: sabem e acreditam . Sabem como funciona a dinâmica e não se entristecem com o Outono. Sabem que eu as imagino assim, e por isso gostam de me fitar quando tudo dorme. Elas acreditam em mim, nos céus e nas terras e acreditam no sempre. Acreditam!
Elas acreditam que um dia tudo estará acordado quando uma delas adormecer eternamente, para sempre...

domingo, setembro 28, 2008

Celeridade de um sorriso ou de um olhar


O olhar. O olhar confunde-se com o sorriso e no sorriso há o olhar e no olhar há o sorriso. O toque é pequeno e a luz infinita. A celeridade dos pensamentos é absurda e os desejos e invocações de novo existem neste lugar tão próprio que é meu. Na primeira vez, a luminosidade não é clara e inconscientemente ela fica a dançar invisivelmente nos olhos. Na segunda percepção, vê-se algo e gosta-se do que se fita. E nas restantes, a luz surge e traz sorrisos agregados a ela e a gente sorri.

Então…

Podia começar a exortar génios e teria sucesso, porque estes crêem num olhar e eu creio em genialidades. E, por vezes, por mais que me distancie do meu céu, a luz daquela estrela aparece num brilho desigual de um sorriso meu ou de alguém.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Ser ou não ser...


De alvorada em alvorada o canto persistia. Mil léguas ultrapassava num estilo magistral e perfeito. A razão era simples: acordar. Os olhos abriam com a claridade da manhã e a mente estremecia com o sussurro dos pássaros, das flores, das nuvens e de outros naturais. O sabor daqueles dias era igual ao de uma quimera abençoada. Era Primavera, Verão, Outono e Inverno e existir era rir.

De vigília em vigília o canto persistia. Mil léguas ultrapassava num estilo ignóbil e perverso. A razão era simples: acordar. Os olhos abriam com a escuridão da noite e a mente estremecia com o sussurro de gritos e de berros surreais. O sabor daqueles dias era igual ao de um pesadelo cruel. Era Primavera, Verão, Outono e Inverno e existir era sinónimo a não ser nada.


Humano? Eu?

terça-feira, setembro 02, 2008

Intuitos


As cores do natural coabitavam num universo tão próprio de colorações que eram capazes de falar mais do que humanos com capacidade retórica. Os olhos, cinzentos como a cinza, entendiam esta mutação artística e faziam-na desfrutar, momento a momento, o que percebia pelo olhar. Os sons também se alteravam com a direcção do vento: eram melosos e prezados e faziam-na levitar num oceano de utopia. Percorria aquela estrada, de pó capaz de cegar, sem desejo de chegar ao último quilómetro. Os passos eram pequenos, os intuitos tão grandes. O tic-tac do relógio estava abafado pelo espaço, e o tempo transformava-se num elemento inexistente à vida, como se fosse possível.
Das possibilidades, passa a ter como condiscípulas de jornada as impossibilidades. Quando deixava de sentir a brisa a bater-lhe na cara, notava que já lhe tinham aberto a porta do mundo real. Tudo se desvanecia ao querer dela. Agora, os passos eram grandes e os intuitos tão pequenos. Os sorrisos das flores e o canto das nuvens escondiam-se neste mundo e perdiam-se pelos labirintos tão comuns. Chamavam-na, em silêncio para ninguém ouvir, e convidavam-na a percorrer os caminhos que tinham descoberto para o outro tal mundo. Ela queria… mas o dever imperava.
À noite, a realidade dormia sem sonhos e ela atrevia-se a fazer o caminho de todas as manhãs, acompanhada pela luz mágica da Lua. Voava e acreditava.

Era um refúgio, era uma salvação. Era ela a inventar cores e maresias e fantoches benfeitores.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Emaranhar de ideias


A porta fecha. As cortinas correm. A vontade de escrever alia-se a um misticismo colorido pelas batidas quentes e escuras da noite. As palavras sussurram-me segredos analfabetos para o meu entendimento. Sei, por saber, que me falam do meu âmago. Trazem escondidas essências de sabedoria, razão e sentimento absurdo. Não é fácil perceber. O tempo esvoaça como o fumo da imaginação e a areia quase cessa e há a tomada de decisão que não espreita. A velocidade da rotação aumenta complexadamente e envolvo-me no que vejo, sem saber a porta de chegada e de partida. Estou no meio. Virtude? Graça? Desejo? Erro? É… no horizonte brilham questões e negações que se aliam a uma constante numa equação demasiado infinita. A terra e os sonhos sabem a mundos paralelos: intocáveis na perspectiva mais óbvia. Soltam-se gritos e asas avolumadas o suficiente para criar laços desejáveis. A identidade reluz e não se parece mais com o universo que arrefece pouco a pouco. No meio deste emaranhar de ideias, alguém ousa esperar pela luz da porta mais certa.

domingo, julho 13, 2008

Luz pouca



Perdida no silêncio amargo daquela noite, era capaz de te olhar e ver que não estavas bem. Não podia falar. Não podia sorrir. Não podia acenar. Apenas olhar. E olhava-te, como a Esfinge no deserto cheia de sede, e sentia que continuavas escuro. Toda a luz que tinhas conseguido tinha mudado de cor dentro de ti: cinzento e agora negro.
Estás preso, com correntes mortas, a ti mesmo e não te queres libertar. O que tens faz-te mal. O dever devia ser iluminar e não cobrir a luz com cabelos mentirosos e mãos bloqueadas.

Gostava de poder, outra vez, falar-te e dizer-te tanto, mas não posso. Promessa a mim mesma? Melhor: forma de eu não ficar sem brilho e esperança como tu.

Para ti, o desejo de te soltares da clausura em que vives por quereres e amares.


P.S. O blog fez 2 anos :) Eu mudei muito, mas vontade pela qual ele nasceu continua inalterável...

quinta-feira, junho 26, 2008

Cantos


Entrelaço-me no descanso dos dias longos e deixo-me ficar a saborear o que de mais delicioso há no recanto da minha lua. Olho, com aqueles meus olhos de escutar, os segredos dos que andam a dormir com o olhar entreaberto. Às vezes, gosto do que vejo e sorrio; outras, não esboço qualquer simpatia e baloiço-me na minha lua à procura de uma nova projecção.

Rodo-mo no melhor sentido da rosa-dos-ventos; Norte, Sul, Este, Oeste? Que importa? A melhor direcção é a minha: a mistura de todos os pontos cardeais com um único sentido apenas. Deleito-me com os aromas da terra e da água e do céu. E Disfarço-me na cor branca e deixo-me estar nesta transparência até quando eu quiser. Ou Tu?

Os segredos continuam a bajular as essências e cada vez mais me sinto convidada a ouvir os cantos das aves universais.

domingo, junho 01, 2008

Cansamo-nos



Cansamo-nos. Trazemos à baila essências demasiado trabalhadas para serem expostas aos não seres. Ficamos quietos e rimos. Rimos muito e alto. Rimos pelos olhares. Rimos pelo pardo que nos atrai. Rimos por existirmos assim. E. Baloiçamos com as letras das palavras que cantamos tão silenciosamente. Baloiçamos com os gestos das nossas vozes e das nossas mãos.

Ouvimos o rasto da música e tornamo-nos mais sérios. Adivinho a tua cor e tornaste irrisório nos meus pensamentos. Os barcos de papel que deixaste por navegar deixaram-te num porto hesitante. O mar fica revolto e tudo escuro, igual a ti. O teu olhar torna-se o meu. E. Não quero ver.

Cansamo-nos. As margens distanciam-se e nem um braço, nem dois, nem três eram capazes de uni-las por um dedo. Caminho para um lado e tu para outro. A música continua a ecoar baixinho. Fecho a minha janela e deixo-to do lado de fora. Estamos cansados. Preciso adormecer e acordar como eu era. Porque só assim faz algum sentido.

sábado, maio 24, 2008

É tudo.



Costas voltadas.
Arrepios de escuro.
Voz.
Poema.
Letras e palavras: Melancólicas.

Compassos misteriosos de pianos.
Eco.

Arrepio.
Lágrima.
Sentimento.

Sol.

Magia.

Quebra de ritmo e abala-se a melodia.

Palmas.

Sorrisos.
Desejos.


É tudo.

quinta-feira, maio 15, 2008

O ideal


A noite cai como um pano sobre a cara. Fecham-se as luzes e rodopiam-se as vontades. Trazem-se os sonhos amarelecidos. Focam-se as promessas em choros silenciosos. As palavras são desenhadas e guiam escondidas estados de alma. Penso: talvez o ponto final signifique mais do que ele mesmo; talvez o ponto final traga consigo o dia e as estrelas; talvez o ponto final seja o pretexto para finalmente brilhar. Os pensamentos continuam a significar símbolos e as minhas deixas deixam de ser pertinentes. O agora torna-se no que foi e fica o caminho aberto, como um conjunto ilimitado. A noite cai como uma flor seca, a morrer. É precisa água, muita água para renascê-la. Torná-la de acabada a mágica. O ideal.


Catarina

"(...)Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada." Miguel Torga

quarta-feira, maio 07, 2008

Herói, certo.


Nasceu quando ainda não havia nada que o fizesse viver. Tudo estava estagnado, quando nasceu. O tempo parado, os barcos encalhados, o vento estático, os sonhos mortos.

Nasceu quando ainda não havia nada que o fizesse acreditar. Crentes inexistentes faziam do passar irrisório dos ponteiros do relógio, grande negro da cómoda invisível, mera queda de pétalas de flores sem luz nem vida. Absurdos moravam na banalidade do comezinho, sem persuadir o próprio eu de cada um. Estúpidos, certo. Acomodavam-se ao conformismo hipócrita sem perceberem que tudo estava a abrandar; pouco a pouco, tudo estava a fenecer. Envolto de tanto fracasso, ele nasceu.

Nasceu quando ainda não havia nada que o fizesse crescer. O caos instalara-se na desordem do espaço e já pouco fazia sentido. Sem sentido de fuga, teve que nascer. Não houve brilhos nem sinos, só ouve um choro prolongado de lágrimas puras de imunidade à queda do apogeu. A linha do tempo foi-se aproximando do fim e o sufoco era notório nele. Era preciso algo. A cura existia, e era terrena e suprema. Ecos de bombardeios de sonhos invadiam-lhe o pensar e o sentir. Estremeciam-no. Pum-pum. A noite caíra e baloiçava tenuemente uma mudança pelos ares quietos. A metamorfose do existencialismo do indivíduo foi saber sonhar naquelas prontas horas e dar voz, muita voz!, a todos os desejos impostos por ele ou por alguém de olhos bem abertos.

Tudo acordou com o raiar da luz da manhã: as flores, as águas, os ventos, as pessoa, os céus. De ridículo, tudo passou a interessante. Herói, certo.